Carta de alforria

 

A vida é um instante, filha.

Eu me assusto com isso, algumas vezes.

Quer dizer. A gente vive com uma espécie de certeza de que tudo isso aqui é permanente, né. Por vezes, inclusive, acabamos sofrendo demais, pensando demais, aumentando demais coisas que nem precisavam de toda essa ênfase. Amarramos nossos pés ao que nos garante estabilidade, quando a única coisa que precisamos é mesmo de espaço e céu aberto pra voar. Às vezes, parece que estamos numa prisão.

Mas se prestarmos atenção, é mesmo um mergulho.

Nem tudo tem a dimensão que nos parece. Nem o peso.
Sobretudo o peso é muito relativo.

A vida é sopro, meu bem.
Num piscar de olhos tudo como você conhece pode mudar.

E está tudo bem também, não vamos lamentar o incerto.
Nem paralisarmos diante do vão.
É na ação que a gente aprende e é só em movimento que a roda gira. E estar em movimento, nos movimentos, pode e deve ser engradecedor. Para si e para além.

Só não esquece de olhar pro céu. E aceitar a mudança das estações. E de respeitar o seu corpo, seu tempo, seus limites. Consigo mesma, com a vida e com o outro. Não se esqueça de olhar pro outro, de ouvir e estender a mão.

Há que se abrir um pouco a vista, tirar o olhar do que é só terreno, do que a gente tem certeza que é concreto. Porque aí deixamos de ver outras tantas nuances e possibilidades diante da imensidão que é o viver.

Emancipação verdadeira é entender e viver isso. Entregar. Ir. Conseguir viver a liberdade que é esse mistério. E reverenciá-lo, todos os dias, enquanto fazemos o nosso caminho.

E é mesmo um paradoxo. Porque é um sopro, uma brisa que passa diante do abismo. Não tem controle, não tem certeza, não tem regra. Mesmo assim, e talvez exatamente por isso, é fundamental. Vital.

O mundo pode até tentar te prender por algum motivo, te podar ou te impedir de fazer o quer que seja. Apenas vá, meu bem. Continue indo. Não pare nestas palavras vazias. Ocupe-se de quem você é.

Esta carta é para te lembrar que você é uma pessoa livre.

Não esquece, tá?

com amor,
mamãe.

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#32 {para cuidar de mim}

Pensar demais é uma coisa que eu faço constantemente. O que poderia até ser uma coisa boa, se não fosse tão ruim. Que paralisa. Que atormenta. Pensar demais não no sentido de problematizar para sair do lugar e mudar a vida pra melhor, mas no sentido de focar no que poderia estar diferente, no que está, teoricamente, “errado”. Isso ocupa um baita espaço aqui na minha cabeça, confesso. É por isso que tenho buscado cada vez mais aprender a respirar, a ir com calma, estar presente. Porque pensando demais tudo que eu não faço é estar presente. Por mais que pareça que sim, a verdade é que eu não estou aqui. Estou num lugar imaginário, hipotético, um mundo paralelo chamado ideal. Ilusão. Praticar o hábito de voltar pro presente é o que me ajuda a sair dessa inércia e seguir caminhando. É um exercício diário, ainda não é automático todos os dias. Mas não preciso esperar que seja para saber que é o que me faz bem.

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#31 {para cuidar de mim}

Eu escrevo porque é o que eu sei fazer.
Combinar palavras para transmitir o que eu sinto é a minha melhor forma de expressão. Melhor do que falando, bem melhor. Escrevo para pensar melhor. Para organizar as ideias. Para mudar de ideia. Escrevo quando quero dar um conselho a um amigo. Escrevo quando não quero falar com ninguém. Para exorcizar. Vibrar. Homenagear. Ou quando quero me desculpar. Escrevo porque as palavras sempre sabem o que dizer, eu só obedeço. Eu as ouço. Várias vezes. Interpreto. E só então passo adiante. Escrevo quando chove lá fora ou quando chove aqui dentro. E também para fazer ou parar de chover. Florescer. Renascer. Escrevo para tentar capturar o tempo enquanto ele passa por mim, distraído. E para libertar – pessoas e sentimentos. Escrevendo eu consigo ir lá longe, mesmo que não tenha me levantado a tarde inteira. E também escrevo quando não estou aqui. Andando na rua, dentro do ônibus, tomando um café, conversando com você. Escrevo primeiro dentro da cabeça, é assim que começa. As palavras vão surgindo e se unindo feito roupa estendida no varal, uma a uma. Eu as estico direitinho, descanso na sombra que elas me dão lá no quintal e depois é só recolher e usar cada uma no momento mais oportuno. Escrevendo eu me visto. Escondo ou revelo. Às vezes eu não sei nem por onde começar e acho que nenhuma me serve – e estes são os piores, dá vontade de ficar na cama o dia todo, mas não é me escondendo que vai passar. Escrevendo eu me vejo. Eu me viro. Também me ouço melhor. Escrevendo eu me invento. Aprendi aos quatro anos e desde então sigo escrevendo. Não imagino sendo diferente. É a única coisa que eu sei fazer. (Texto escrito em 2013, segue sendo minha verdade).

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#30 {para cuidar de mim}

Pequenas coisinhas felizes: tarde de filme e companhia da prima amada. ❤️ A cada uma das pessoas queridas que me mandaram força, abraço e boas energias ontem: obrigada, obrigada, obrigada. Chegou aqui, saibam disso. Tem sido um aprendizado deixar os sentimentos ficarem por um tempo, ao invés de buscar alternativas para mandar tudo embora de uma vez. Agora está tudo bem. E tive uma tarde tranquila, pra aliviar a semana que já está quase acabando. Que bom que eu consegui compartilhar com vocês. Que bom que estamos juntos. Sigamos.

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#29 {para cuidar de mim}

Hoje senti raiva. Queria me esconder, sumir. Todos os pensamentos que me vinham eram transformados em algo chato, pesado, ruim. Pelo menos a sensação era essa. Pensava em escrever, achava que ia sair tudo uma merda. Pensava em sair de casa, e logo vinham os empecilhos. Pensava em arrumar a casa, mas não tinha força pra começar. Como conseguir fugir, se nem um passo estou conseguindo dar? O jeito era deixar a raiva ficar aqui mesmo. Não arrumei nada, não cozinhei, não fui bem humorada – apesar de não ter distribuído ofensas também. Deixei a raiva ficar em mim. Se eu a passasse adiante, sabia que ia ser pior. Sabia porque já fiz assim outras vezes. Me tranquei no banheiro. Em algum momento consegui sair de casa, agora estou em outro lugar. Cansada. Parece que estou de ressaca, sabe? O jeito então é descansar e me hidratar. Dizem que é bom pra gente se recuperar mais rápido.

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