Rua 8, nº 8

O mundo começa pra mim a partir daquela casa. Ali, onde eu morei dos 2 aos 11 anos. As primeiras lembranças, as primeiras referências. Minha infância inteira dentro daqueles muros.

Minha mãe diz que me colocou na escolinha por causa do muro. Não o muro da escola, o muro da nossa casa mesmo. É que eu chorava muito ali dentro. Depois de tentar descobrir, em vão, o que se passava com uma pessoinha tão pequena, e sem conhecer nenhuma outra criança naquele novo bairro, ela resolveu me matricular na escolinha ali pertinho, pra ver se socializando um pouco as coisas amenizavam. Não sei ao certo quando se deu a descoberta, mas não foram as tardes fora de casa que me secaram as lágrimas. Acontece que eu não gostava daquele muro. Eu chorava porque me sentia presa. Era um muro alto, que cercava nosso quintal todinho e nos separava da rua. Cumpria muito bem seu papel de muro. Pra mim, que não entendia de papel nem de concreto, só sabia chorar pela visão que me era tirada por aquela fortaleza cinza. Eu queria liberdade, eu queria ver a rua, as pessoas, os carros, os cachorros. Eu queria ver a vida acontecendo lá fora, mesmo que a visão fosse só a rua vazia na maior parte do dia, porque era um bairro muito sossegado, o nosso.

Com o tempo eu fui entendendo que o muro não era um problema. Ou que eu não precisava focar só nisso, pelo menos. Tinha muita coisa ali dentro para aproveitar. Tinha um quintal gramado muito legal, que me fazia ficar com as pernas coçando quando deitava ali. Tinha pé de romã e pé de acerola, onde de vez em quando eu tentava montar uma cabana, além de capim-santo e hortelã. Tinham as roseiras que meu pai cuidava. Eu tinha espaço lá dentro para brincar e ser feliz. Além disso, descobri a incrível funcionalidade dos portões – essas portas grandes de metal que servem para nos levar para fora. Como dizemos lá em Minas, eu amava ficar na porta da rua. Eu brincava de amarelinha, de pega-pega, de elefante colorido, andava de bicicleta. Eram muitas possibilidades. Minha mãe ficava sentada na calçada enquanto eu brincava – vezes sozinha, vezes com alguma amiguinha ou amiguinho. Porta da rua era vida. Era liberdade. Eram tardes inteiras de infância livre e joelhos ralados e pés sujos de poeira.

Minha infância ainda mora naquela casa, o que quer dizer que ela ainda está em mim. O muro, que de início era sinônimo de desespero, se tornou parte do cenário, naturalmente. Ali naquela casa eu aprendi, desde cedo, coisas que ainda trago comigo, mesmo estando tão longe de lá, há tanto tempo. Existem maneiras de driblar o que nos desagrada, mesmo quando é tudo tão concreto e intransponível. Existem alternativas. E existe também o tempo, responsável por consolidar e tranquilizar tudo ao seu redor – é só nos lembrarmos de explorar o que já temos e sair para dar uma voltinha vez ou outra enquanto ele faz o que tem que ser feito.