Pequeninos seres

Eu gosto de pensar nos sentimentos como pequeninos seres que vivem dentro de nós. Sua função é nos ajudar a ver o mundo de acordo com as suas lentes. Dependendo do que está em cena, algum deles sobe até a borda, entra no campo das relações e faz o seu trabalho. Depois volta para o seu lugar, pois sabe que existem outros esperando para cumprir o seu papel também. Dependendo da intensidade sobem muitos – e a gente fica com aquela sensação de “misto de sentimentos”. É que de vez em quando eles também se atropelam e precisam dar o se recado ao mesmo tempo, têm muita urgência.

Muitas vezes, porém, os impedimos de sair, de chegar até a superfície e nos mostrar o que tem que ser visto. Provavelmente é quando não gostamos do que já vimos através deles em outro tempo. Quando houve alguma ferida – que pode nem estar curada ainda. Gato escaldado, sabe como é.
Só que quando não damos espaço para que eles saiam, eles permanecem tentando nos mostrar. Não entendem o recado – ou não aceitam, vai saber. Continuam voltando, dia após dia. E o que pode acontecer é, não conseguindo sair pela porta tradicional, eles procuram outros meios para nos mostrar o quer que seja que precisamos ver ou resolver. Dão seus recados através de falta de ar, dor nas costas, insônia, fome descontrolada, ansiedade, dor de cabeça (só no campo das dores a lista é vasta). Eles não vão embora. Mesmo quando achamos que sim. Mesmo quando achamos que estão em sono profundo, mortos, enterrados.

A única forma de fazer com que eles nos deixem em paz é uma só: permitindo que eles venham. Reconhecendo que estão aqui.

Mas é importante falar uma coisa: sentir não é fazer. Não é porque estou sentindo muita raiva que tenho que bater em alguém. Não é porque estou com ciúmes que preciso ofender o outro. É óbvio que não é necessário sentir sozinho, escondido no quarto. Mas quando os sentimentos se tornam ações, não dá pra ultrapassar o limite do outro. Faça o que quiser dentro do seu campo de segurança. Não precisa fazer com que o outro sinta o que você está sentindo batendo, humilhando, ofendendo. Porque assim essas emoções tomam conta por muito mais tempo do que o necessário. Deixam de ser pequeninos seres para serem grandes monstros. E não é bem assim. Somos integrados e compostos por várias partes. Da mesma forma que não dá para ser só racional e fingir que não sente nada, viver dominado pelas emoções também não é o caminho mais indicado.

Eu sei que não é fácil, que nem sempre a gente consegue. Mas é preciso ter paciência, principalmente com a gente mesmo. Paciência para esperar, para deixar vir, para ouvir, para mudar. Nada é da noite pro dia. A vida é uma travessia. Que continuemos caminhando, apesar do que achamos que pode nos impedir – a única coisa capaz disso é a gente desistir e parar de ir. De resto, a gente dá um jeito. Sempre dá.

(trecho da minha newsletter, enviada em março de 2017. para se cadastrar e acompanhar meus devaneios e doidices, é só se cadastrar por esse link: https://tinyletter.com/marinammatos).

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