Não é pra ser tudo igual

Esses dias eu estava conversando com uma pessoa sobre como tenho dificuldade de sentir o tal do pertencimento. Em relação a grupos, pessoas, movimentos e a coisa toda. Nessa conversa em questão eu tentava encontrar um equilíbrio, um norte. Cabe muitas vertentes aqui dentro, sabe, nunca estou num mesmo canto, com um único foco de interesse, enfim. Na verdade, eu só queria saber se eu não era estranha demais por não me sentir inteiramente pertencente a um lugar só, entre iguais.

Porque desde muito cedo a gente aprende a buscar as semelhanças pelo mundo. Afinidades, simpatias, vínculos. Tudo o que combina. Na adolescência deve acontecer uma espécie de ápice, quando afastamos pra bem longe tudo que não queremos nem pensar em ser. Mas isso não se encerra nessa fase da vida. (E quando evolui de forma doentia, o que surge são todos os preconceitos, discursos de ódio e até leis que tentam proibir as diferenças de existem sobre a terra. E isso é muito sério). E não nos esqueçamos de um fenômeno mais recente, as nossas famigeradas timelines, que seguem mais homogêneas do que nunca, excluindo os que vão contra as nossas verdades e trazendo pra perto só quem nos soa bem aos ouvidos. Queremos construir uma bolha perfeita de sintonias e morar dentro dela pra sempre. Que maravilha, um mundo só de semelhantes, em que todos se entendem, se reconhecem e por aí segue as utopias todas de um mundo mais bonita e cor de rosa (ou qualquer outra cor, mas que seja uma só).

O que não nos contam é que a gente também se encontra nas diferenças. Principalmente nas diferenças, eu diria. Na verdade, só conseguimos saber quem somos quando identificamos tudo o que não nos cabe. Já pensou nisso? Que esse estranhamento é uma peça bem importante na construção da nossa identidade? A alteridade nos traz mais empatia, tolerância, reconhecimento e é onde mora o que ainda não aprendemos, enquanto sociedade, sobre a vastidão que é ser humano.

As diferenças compõem o cenário e precisamos aprender a conviver com elas, é urgente que isso aconteça. E então eu entendi que pertencimento não precisa ser necessariamente sinônimo de tudo que é igual ao que eu sou. Até porque, vamos combinar, não existe essa pessoa ou grupo que seja assim, tim-tim por tim-tim, o que a gente é. Ufa. Posso me sentir pertencente a várias frentes, e ainda bem que existem tantas nuances nas quais eu posso  me espelhar, e observar, e aprender, e conviver. Como eu costumo dizer: o mundo é desse tamanhão todo exatamente pra caber todas as diferenças e peculiaridades. Que não as afastemos de nós, afinal. Que saibamos respeitar os seus (e os nossos) lugares nessa trama que é a vida.

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