Eis o desafio

Nem sempre é fácil saber esperar o tempo do outro. Muitas vezes a gente apressa as coisas. Porque é muita ansiedade, porque é melhor viver logo o que tiver de ser, porque quer acabar com isso de uma vez. A gente apressa. Muitas vezes por ânsia, uma sede de viver, de botar no mundo um projeto, um sonho, um ideal. Mas aí, no meio do caminho, encontramos outra pessoa. Ah, as pessoas. Mundos distintos, por vezes tão distantes dos nossos. Mesmo vivendo na casa ao lado, mesmo dividindo a mesma cama. Pessoas são mundos inteiros que, por mais que a gente queira, por tanto que a gente tente, não há como conhecer (entender) assim logo de cara, de uma vez.

O negócio começa a encrencar quando a gente pensa que tem que ser pro outro da mesma forma que vemos pra nós. Da nossa janelinha temos uma visão parcial da realidade, é meio estranho achar que em todo lugar é do mesmo jeito, ao mesmo tempo. Que o outro vai ter as mesmas impressões, reações, emoções. Que a ficha vai cair ao mesmo tempo. Que a chavinha vai virar e passaremos a vibrar na mesma frequência, em perfeita sintonia e equilíbrio.

E o barato da vida não estaria justamente nisso? Em todas as diferenças, tons, frequências e melodias que, juntas, formariam um cenário espetacular, mas absolutamente essenciais e inteiras, próprias, completas em cada singularidade?

Eu não sei. Por que tem sido tão difícil ser empático? Por que a empatia só existe com aqueles que me são mais queridos? Quero dizer. Muito fácil me colocar no lugar do outro quando gosto dele, quando frequentamos as mesmas rodas, falamos o mesmo discurso político ou temos as mesmas preferências culinárias. Mas e todo o resto do mundo? Existe uma escala de empatia? Existe algum tipo de meritocracia? Não dá. É complicado querer que os outros andem no nosso compasso, porque do nosso jeito é claramente mais legal, bonito e eficiente, inclusive comprovado cientificamente. Pode ser. Acredito que seja mesmo. Eu mesma por vezes me pego querendo, com algumas pessoas, enfiar palavras goela abaixo e torcendo para elas se transformarem em algo produtivo lá dentro. E que transbordem. De preferência no tempo que eu julgo mais apropriado.

(Eu sei que a vida real, lá fora, é torta. Que existem pessoas que fazem mal uso do poder que têm, que violentam, que matam, ferem, ofendem, agridem. Também choro com isso. E não estou dizendo pra gente passar a mão na cabeça desse povo, muito menos fazer vista grossa. Nem era nisso que eu estava pensando quando comecei a escrever esse texto. Mas me ocorreu, porque é fácil a gente falar que não dá pra ter empatia com tais atitudes. Óbvio. É que hoje não estou me referindo aos atos, quaisquer que sejam). Estou divagando sobre a gente querer sempre que o outro nos acompanhe nos raciocínios, nos engajamentos, nas atitudes. Até nas pausas. Até nas férias. Até nas farras.

Algumas vezes a gente precisa saber esperar também. Eis aqui o desafio. O maor impasse da era do imediatismo e da eficiência. E s p e r a r. Sair um pouco do modo ativo, sentar na calçada, debaixo da sombra de uma árvore e apenas estar ali. Enquanto o outro pondera. Gesta. Transforma. A vida também acontece de pouquinho, afinal. Pode ser que seja uma postura, uma forma de ver a vida. E que tenha algo a ver com confiança, por saber que estou fazendo a minha parte; e de humildade, porque nem tudo depende de mim. Que bom que não.

Carta de alforria

 

A vida é um instante, filha.

Eu me assusto com isso, algumas vezes.

Quer dizer. A gente vive com uma espécie de certeza de que tudo isso aqui é permanente, né. Por vezes, inclusive, acabamos sofrendo demais, pensando demais, aumentando demais coisas que nem precisavam de toda essa ênfase. Amarramos nossos pés ao que nos garante estabilidade, quando a única coisa que precisamos é mesmo de espaço e céu aberto pra voar. Às vezes, parece que estamos numa prisão.

Mas se prestarmos atenção, é mesmo um mergulho.

Nem tudo tem a dimensão que nos parece. Nem o peso.
Sobretudo o peso é muito relativo.

A vida é sopro, meu bem.
Num piscar de olhos tudo como você conhece pode mudar.

E está tudo bem também, não vamos lamentar o incerto.
Nem paralisarmos diante do vão.
É na ação que a gente aprende e é só em movimento que a roda gira. E estar em movimento, nos movimentos, pode e deve ser engradecedor. Para si e para além.

Só não esquece de olhar pro céu. E aceitar a mudança das estações. E de respeitar o seu corpo, seu tempo, seus limites. Consigo mesma, com a vida e com o outro. Não se esqueça de olhar pro outro, de ouvir e estender a mão.

Há que se abrir um pouco a vista, tirar o olhar do que é só terreno, do que a gente tem certeza que é concreto. Porque aí deixamos de ver outras tantas nuances e possibilidades diante da imensidão que é o viver.

Emancipação verdadeira é entender e viver isso. Entregar. Ir. Conseguir viver a liberdade que é esse mistério. E reverenciá-lo, todos os dias, enquanto fazemos o nosso caminho.

E é mesmo um paradoxo. Porque é um sopro, uma brisa que passa diante do abismo. Não tem controle, não tem certeza, não tem regra. Mesmo assim, e talvez exatamente por isso, é fundamental. Vital.

O mundo pode até tentar te prender por algum motivo, te podar ou te impedir de fazer o quer que seja. Apenas vá, meu bem. Continue indo. Não pare nestas palavras vazias. Ocupe-se de quem você é.

Esta carta é para te lembrar que você é uma pessoa livre.

Não esquece, tá?

com amor,
mamãe.

#32 {para cuidar de mim}

Pensar demais é uma coisa que eu faço constantemente. O que poderia até ser uma coisa boa, se não fosse tão ruim. Que paralisa. Que atormenta. Pensar demais não no sentido de problematizar para sair do lugar e mudar a vida pra melhor, mas no sentido de focar no que poderia estar diferente, no que está, teoricamente, “errado”. Isso ocupa um baita espaço aqui na minha cabeça, confesso. É por isso que tenho buscado cada vez mais aprender a respirar, a ir com calma, estar presente. Porque pensando demais tudo que eu não faço é estar presente. Por mais que pareça que sim, a verdade é que eu não estou aqui. Estou num lugar imaginário, hipotético, um mundo paralelo chamado ideal. Ilusão. Praticar o hábito de voltar pro presente é o que me ajuda a sair dessa inércia e seguir caminhando. É um exercício diário, ainda não é automático todos os dias. Mas não preciso esperar que seja para saber que é o que me faz bem.

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#31 {para cuidar de mim}

Eu escrevo porque é o que eu sei fazer.
Combinar palavras para transmitir o que eu sinto é a minha melhor forma de expressão. Melhor do que falando, bem melhor. Escrevo para pensar melhor. Para organizar as ideias. Para mudar de ideia. Escrevo quando quero dar um conselho a um amigo. Escrevo quando não quero falar com ninguém. Para exorcizar. Vibrar. Homenagear. Ou quando quero me desculpar. Escrevo porque as palavras sempre sabem o que dizer, eu só obedeço. Eu as ouço. Várias vezes. Interpreto. E só então passo adiante. Escrevo quando chove lá fora ou quando chove aqui dentro. E também para fazer ou parar de chover. Florescer. Renascer. Escrevo para tentar capturar o tempo enquanto ele passa por mim, distraído. E para libertar – pessoas e sentimentos. Escrevendo eu consigo ir lá longe, mesmo que não tenha me levantado a tarde inteira. E também escrevo quando não estou aqui. Andando na rua, dentro do ônibus, tomando um café, conversando com você. Escrevo primeiro dentro da cabeça, é assim que começa. As palavras vão surgindo e se unindo feito roupa estendida no varal, uma a uma. Eu as estico direitinho, descanso na sombra que elas me dão lá no quintal e depois é só recolher e usar cada uma no momento mais oportuno. Escrevendo eu me visto. Escondo ou revelo. Às vezes eu não sei nem por onde começar e acho que nenhuma me serve – e estes são os piores, dá vontade de ficar na cama o dia todo, mas não é me escondendo que vai passar. Escrevendo eu me vejo. Eu me viro. Também me ouço melhor. Escrevendo eu me invento. Aprendi aos quatro anos e desde então sigo escrevendo. Não imagino sendo diferente. É a única coisa que eu sei fazer. (Texto escrito em 2013, segue sendo minha verdade).

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#30 {para cuidar de mim}

Pequenas coisinhas felizes: tarde de filme e companhia da prima amada. ❤️ A cada uma das pessoas queridas que me mandaram força, abraço e boas energias ontem: obrigada, obrigada, obrigada. Chegou aqui, saibam disso. Tem sido um aprendizado deixar os sentimentos ficarem por um tempo, ao invés de buscar alternativas para mandar tudo embora de uma vez. Agora está tudo bem. E tive uma tarde tranquila, pra aliviar a semana que já está quase acabando. Que bom que eu consegui compartilhar com vocês. Que bom que estamos juntos. Sigamos.

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