“Palavra foi feita pra dizer”

Às vezes, eu penso tanto numa palavra que ela vai como que perdendo o significado. Já aconteceu com você? É como se todas as camadas que a envolvessem, todos os sentidos que atribuímos a ela, fossem sendo retirados pouco a pouco e, dessa maneira, assim devagar, fosse ficando só a sua estrutura, crua, pronta para ser desvendada.

Faça o exercício. Fica repetindo, por exemplo, cadeira. Cadeira, cadeira, cadeira, cadeira, cadeira. De repente, é como se isso não fosse mais apenas um simbolismo linguístico para denominar um objeto. Aos poucos, a palavra vai ganhando um novo sentido. Ou perdendo, dependendo do ponto de onde se olhe. É como lapidar uma rocha, mas ao contrário. Ao final do exercício o que se tem é pedra bruta, dura, maciça. Uma coisa que não se sabe o que é, que não precisa ser nada. Ela acaba em si mesma. Basta-se.

Nós é que tendemos a complicar demais.

Quantas vezes a gente tenta inventar sentidos para o que ouvimos? Quantas vezes tentamos enfeitar um texto ou um discurso para soar mais doce, ou mais sério, ou o que quer que seja que queiramos passar adiante? Quantas vezes acenamos com a cabeça, concordando com o que estamos ouvindo, quando na verdade nossa mente está longe, voando em outra dimensão? Quantas vezes, no meio de uma discussão, escutamos o que o outro está dizendo e entendemos tudo exatamente ao oposto do que o pretendido por quem disse?

As palavras deixam que a gente faça o que quisermos com elas, são muito maleáveis. Elas são o que a gente quer que elas sejam. Uma cadeira só é uma cadeira porque assim a chamamos. Poderia ser outra coisa, mas não é. Algumas até carregam em si sentidos diversos, mas são poucas. Algumas palavras carregam em si exatamente o que significam. São simples. Céu, leveza, balanço, bebê. Elas passam a mensagem certa. Ou talvez seja apenas eu. (“Eu” também é uma palavra muito bem empregada em seu significado, a propósito). A interação que temos com as palavras é que vai determinar o rumo que ela vai tomar. Somos nós que decidimos. Somos seus deuses e senhores.

Mas ainda sim humanos.

Ou seja, erramos, vacilamos, poderíamos evoluir em muita coisa. Só isso explica algumas palavras tão descabidas. Idiossincrasia, inhame, cotovelo, braguilha. Podiam ser outra coisa, podiam melhorar. Pudim, por outro lado, só podia mesmo ser pudim. Gosto de bochecha, coelho, coruja. Até pneumoultramicroscopicosilicovulcanoconiotico tem seu valor. É a maior palavra da língua portuguesa. Não soa como pudim, mas cumpre bem o seu papel, isso ninguém pode negar.

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2 comentários sobre ““Palavra foi feita pra dizer”

  1. Adorei, Marina! E achei curioso que toda vez que eu começo a pensar nisso de que as palavras não tem sentido se a gente ficar repetindo eu começo “cadeira cadeira cadeira”. Por que sempre a cadeira???
    E: acho que pneumoblablabla realmente cumpre muito bem seu papel!
    Beijo enorme ❤

    Curtido por 1 pessoa

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