do que sempre pinta por aí

Existe um mistério acontecendo aqui e agora, você sente?

A gente acha que entende alguma coisa. A gente acha que sabe onde está indo quando sai de casa. Que pode controlar o tempo de deslocamento ou de espera numa fila, por exemplo. Achamos que podemos ir e vir quando bem entendermos. Mas no meio de cada decisão que a gente vai tomando durante o dia, existem também os mistérios que a gente não vê. Existe o atraso de dois minutos num troco da padaria que impede um atropelamento. Existe um olhar pro lado sem pensar e ver a pessoa que você estava pensando agorinha mesmo. Existe você esbarrar em alguém na rua e fazê-la lembrar que esqueceu algo ali atrás – pra você nada mudou, seguiu seu caminho do mesmo jeito – mas para aquela pessoa, se não fosse aquele esbarrão, talvez a história fosse outra.

Isso me assusta as vezes. Quero dizer, nem sempre eu quero lidar com esse tipo de verdade, não é uma situação confortável para mim. E é como se a gente se enchesse de distrações e problemas para não ver, mas eles continuam a atravessar o nosso caminho, esses benditos mistérios, ignoram completamente os nossos esforços. Porque, na verdade, não dá pra fugir, né. Não é só sobre a gente, afinal. O controle não está no cérebro. Podemos fechar os olhos, nos entupir de informações e soterrar nossas intuições com timelines e outras janelas, mas a verdade é que a fonte continuará jorrando insistentemente, para sempre, sem descanso.

Eu não sei mais o que dizer sobre isso a não ser que eu quero me manter conectada a ele. Mais do que medo desse abismo, eu o quero. Dá um frio na espinha pensar nesse querer, mas assumir é uma parte importante do processo, então aqui estou eu. Não faço a mais tenra ideia do que está por vir depois disso, as dicas não cabem aqui nesse contexto, mas acho que este é mesmo o espírito da coisa. Só me resta ir.

Lembrete sobre acender a luz

Existe uma frase que eu gosto bastante que diz assim: quanto mais nos aproximarmos da luz, mais encontraremos sombras.
Eu não sei como você é, mas nem todo mundo gosta de sombra. De sombra e água fresca, naquele sentido de descanso, folga, alívio, sim. É muito bem-vindo e desejado, aliás. Mas não é desta sombra que estamos falando. Estou falando de escuro. Breu. De sombra como ausência de claridade. Daquilo que não vemos.

Todos nós temos sombras. Aquilo que nos dói, o que não queremos mostrar, que nos envergonha, que fingimos que não temos e nem somos. Aquilo que ninguém nunca nomeou – e que, por isso, muitas vezes nem sabemos que existe, só sentimos o incômodo da sua presença invisível. Invisível porque nunca o olhamos, porque nunca acendemos a luz. Eu não sei como você é, mas eu tenho gostado de olhar para as minhas sombras. Tenho gostado de dar nome para cada um dos meus bichos papões e dar a eles a liberdade de irem embora, se quiserem; mas, se preferirem ficar, que pelo menos eu saiba com quem estou morando.

Ainda sobre aquela primeira frase, me pego pensando em quantas vezes a gente foge da luz por não querer encarar as sombras. Quantas vezes a gente deixa pra lá quando deveria levar a fundo? É assustador, eu sei. Há que se encarar lágrimas, medo, deserto e toda sorte de sentimentos que nem sempre queremos sentir, como abandono e solidão, só pra citar dois. É mais fácil deixar pra lá, né? Quem precisa mexer no que está quieto no seu canto? Mas a verdade é que muito provavelmente isso não vai estar quieto. É capaz que esteja se movimentando constantemente, atrapalhando sua percepção e seus sentidos, distorcendo fatos e inventando verdades que nunca existiram. Não, deixar pra lá não é exatamente mais fácil.

E quanto mais a gente vai jogando luz, vai olhando e dando nome e encarando e indo em frente, mais atravessa esse limbo e um dia chega numa parte da estrada em que a neblina se dissipa e enxergamos tudo com mais clareza. Até chegar lá é um passo de cada vez, porque correr no escuro não é uma boa ideia. Mas não se esqueça de ir, de qualquer forma. Como já dizia Guimarães Rosa: não convém fazer escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro. Então, dê tempo ao tempo que as coisas se ajeitam e, mesmo que o escuro continue por ali, a sua visão já será outra. Agora vá, não precisa esperar amanhecer, não. A luz que você precisa já está aí, em você.

“Palavra foi feita pra dizer”

Às vezes, eu penso tanto numa palavra que ela vai como que perdendo o significado. Já aconteceu com você? É como se todas as camadas que a envolvessem, todos os sentidos que atribuímos a ela, fossem sendo retirados pouco a pouco e, dessa maneira, assim devagar, fosse ficando só a sua estrutura, crua, pronta para ser desvendada.

Faça o exercício. Fica repetindo, por exemplo, cadeira. Cadeira, cadeira, cadeira, cadeira, cadeira. De repente, é como se isso não fosse mais apenas um simbolismo linguístico para denominar um objeto. Aos poucos, a palavra vai ganhando um novo sentido. Ou perdendo, dependendo do ponto de onde se olhe. É como lapidar uma rocha, mas ao contrário. Ao final do exercício o que se tem é pedra bruta, dura, maciça. Uma coisa que não se sabe o que é, que não precisa ser nada. Ela acaba em si mesma. Basta-se.

Nós é que tendemos a complicar demais.

Quantas vezes a gente tenta inventar sentidos para o que ouvimos? Quantas vezes tentamos enfeitar um texto ou um discurso para soar mais doce, ou mais sério, ou o que quer que seja que queiramos passar adiante? Quantas vezes acenamos com a cabeça, concordando com o que estamos ouvindo, quando na verdade nossa mente está longe, voando em outra dimensão? Quantas vezes, no meio de uma discussão, escutamos o que o outro está dizendo e entendemos tudo exatamente ao oposto do que o pretendido por quem disse?

As palavras deixam que a gente faça o que quisermos com elas, são muito maleáveis. Elas são o que a gente quer que elas sejam. Uma cadeira só é uma cadeira porque assim a chamamos. Poderia ser outra coisa, mas não é. Algumas até carregam em si sentidos diversos, mas são poucas. Algumas palavras carregam em si exatamente o que significam. São simples. Céu, leveza, balanço, bebê. Elas passam a mensagem certa. Ou talvez seja apenas eu. (“Eu” também é uma palavra muito bem empregada em seu significado, a propósito). A interação que temos com as palavras é que vai determinar o rumo que ela vai tomar. Somos nós que decidimos. Somos seus deuses e senhores.

Mas ainda sim humanos.

Ou seja, erramos, vacilamos, poderíamos evoluir em muita coisa. Só isso explica algumas palavras tão descabidas. Idiossincrasia, inhame, cotovelo, braguilha. Podiam ser outra coisa, podiam melhorar. Pudim, por outro lado, só podia mesmo ser pudim. Gosto de bochecha, coelho, coruja. Até pneumoultramicroscopicosilicovulcanoconiotico tem seu valor. É a maior palavra da língua portuguesa. Não soa como pudim, mas cumpre bem o seu papel, isso ninguém pode negar.