Ninguém vai tocar a campainha

Respiro fundo e penso: e agora?

Consegui ler todas as abas do meu navegador que vou abrindo ao longo do dia para olhar com mais calma quando tiver num momento mais tranquilo. Mandei um e-mail. Assisti um vídeo. Zapeei o facebook. Tomei suco. E agora não tenho mais nada para fazer. Ou melhor, não tenho mais nada em que eu possa me esconder. Nem uma distração. Nem uma desculpa. Acabei com todas, acho que foi sem querer.

Passo algumas horas do dia pensando que preciso voltar a escrever com mais frequência, que quero começar outro livro, que tenho um projeto em mente para botar no papel – ou seja, jogar pro mundo. É tanta coisa. E aí quando chega a hora, quando eu finalmente tenho um tempo, já tarde da noite, eu finjo que nem é tão importante ou urgente assim, que preciso desocupar a cabeça das coisas da casa e vou me embrenhando em outros links e em outros mundos. Mas por que? Por que não sentar a bunda na cadeira e fazer simplesmente o que tem que ser feito? As ideias estão aqui, o tempo (milagrosamente) está aqui, o silêncio que preciso está aqui. O medo também está aqui. Afinal de contas, será que eu vou mesmo conseguir executar todas essas coisas que eu tanto quero? Será que sei falar do que estou com vontade de falar? Por que alguém leria essas coisas? Por que alguém compraria um livro meu? Não sei se eu sei fazer isso. É, definitivamente, eu não sei fazer isso, a quem eu quero enganar?

A cantora e compositora (além de várias outras coisas) Amanda Palmer falou sobre esse sentimento de forma muito maravilhosa no seu livro “A Arte de Pedir”, que eu li no fim do ano passado e com o qual me identifiquei aos montes. Aqui um trecho para ilustrar:

“A Patrulha da Fraude são as forças imaginárias e aterrorizantes dos adultos “reais”que você acredita – em algum nível subconsciente – que virão bater à sua porta no meio da noite para dizer:
Estamos de olho e temos provas de que você não tem A MENOR IDEIA DO QUE ESTÁ FAZENDO. Você é acusada do crime de dar um jeitinho, culpada de só inventar merda, e na verdade você nem merece seu emprego, vamos levar tudo embora e CONTAR PARA TODO MUNDO.”

Eu tenho uma Patrulha da Fraude muito eficiente. Algumas vezes posso realmente ouvir a campainha tocando incansavelmente no meio da madrugada (ela adora a madrugada), vindo me arrastar para um tribunal e contando para todo mundo o quanto eu ainda sou aquela criança indefesa, medrosa e descabelada, e o quanto eu não faço ideia do que ando fazendo com a minha própria vida – então como é que eu posso pensar em trabalhar e ~ser alguém~ sendo assim tão… vulnerável?

O fato é que eu não sei mesmo. Não sei de onde surgem minhas ideias. Não sei o que vai ser amanhã. Não sei se estou sendo uma boa mãe, se posso ser uma escritora. Não sei nem se no mês que vem estarei morando ainda no mesmo apartamento, ou se no fim do ano conseguirei viajar. Para resumir, porque – acredite – a lista é bem grande: é muita coisa que eu não sei.

Só que hoje, justamente hoje, o dia em que consegui um espaço de tempo para desaguar minhas palavras, ouvi um som vindo da campainha e, sabendo o que iria encontrar quando abrisse a porta, e não querendo lidar com nada disso, não hoje, não me mexi, prendi a respiração. Me fingi de surda. Não fiz as várias coisas que pretendia, eu sei. Mas também não sucumbi a patrulha que insiste em vir me visitar. Eu não abri e ainda não sei se eles também estão fingindo que foram embora, ou se realmente voltaram mais cedo para suas casas. Sei que estou me sentindo bem por estar exatamente aqui, pensando alto sobre isso tudo e constatando que, por mais que existam dúvidas e receios, eu ainda quero ir. Eu ainda quero tentar jogar minhas palavras pro mundo e colocar muitas ideias em prática. Não pode ser assim tão ruim, não é? O processo me faz tão bem. Com certeza não pode ser ruim, eu sei.

Então tá. Acho que vou abrir a porta, então. Não para ver se ainda tem alguém à espreita, mas para ver a estrada que está logo ali a dois passos de mim. Penso o quanto essa teimosia é importante, e o quanto ainda quero cultivá-la. Porque, por mais fantasmas que nossas cabeças insistam em projetar bem na hora em que estejamos de saída, a gente precisa ir de qualquer forma. Parando um pouquinho para acender uma luz ou para gritar enlouquecidamente de medo, que seja. Não tem problema ter medo. Problema é parar nele. Um passo a mais e a fase muda.

Solto a respiração e – finalmente – penso: é agora!

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“alma repleta de chão”

A matéria-prima que eu uso para criar meus textos e minhas histórias vem de mim. Primeiro porque escrever é a forma de que encontrei de me organizar internamente, mas também existe o fato de que eu sei falar melhor das coisas que vivo. Pode ser que essa seja uma coisa bem egoísta, de ficar olhando muito para o próprio umbigo, mas é uma verdade que eu vivo. Falo melhor das coisas que me acontecem, que me cercam, que me afetam de alguma maneira. Acho que todo mundo tem um pouco disso, né?

É aquela velha frase: não importa o que lhe aconteceu, e sim o que você fez com o que lhe aconteceu. Já vivi inúmeras situações ruins, angustiantes e também muitas outras que me deixaram flutuando de tão feliz. E as vezes eu quero fazer algo com isso. Ou eu quero pegar algum elemento e transformar em outra coisa. Eu gosto de colocar as palavras de um jeito que me ajude a seguir em frente, que me deixe bem, que me coloque em movimento. Eu escrevo para ir. Então eu vivo alguma coisa – qualquer coisa – e com certeza aquilo tem potencial de virar referência pra mim em algum momento. Se for alguma situação difícil, então, eu com certeza vou esmiuçar até encontrar uma forma de deixar a bagagem mais suportável, quando não der para ser mais leve. É assim que a minha cabeça funciona, é assim que eu sou.

E por que eu estou escrevendo isso agora? Porque eu tinha parado de fazer isso. Eu tinha parado de fazer esse exercício de mostrar a mim mesma um lado bom em qualquer situação. Eu tinha parado até de pensar em possibilidades de textos. O que aconteceu foi que eu “peguei pra mim” sentimentos que nunca me pertenceram. Eu me envolvi demais com histórias alheias a ponto de não conseguir manter a minha postura em relação a mim mesma  e a minha visão de mundo – sobretudo à forma de encarar as minhas emoções e vivências.

Ouvir é uma das coisas que mais gosto de fazer. Não costumo fazer julgamentos, eu realmente acho que a escuta é uma ferramenta muito importante, principalmente nos dias de hoje, em que tanta gente quer só falar falar falar. E de repente eu estava ouvindo tanta gente, recebendo tantas informações, acumulando tantas histórias e pontos de vista que eu enchi. E travei. Misturou tudo aqui dentro e é como se eu não pudesse mais falar sobre algumas coisas que sinto e penso porque outras pessoas discordam ou não têm o mesmo raciocínio que o meu. Ou as mesmas oportunidades.

E sim, eu sei que isso não é um problema dessas outras tantas pessoas. Era um problema meu. Quando a gente passa a se incomodar muito com o que vê no outro, é porque isso está reverberando em alguma coisa que já existe em nós. Reverberou em mim e eu parei para escutar. E depois de muito analisar e refletir, percebi que não posso mesmo fazer diferente. Não posso deixar de criar por medo do que vão pensar de mim. Tenho que criar apesar do que podem pensar, porque a parte da criação é minha, os recursos devem estar em mim. O que vem de fora diz muito sobre quem falou também, não apenas do que eu mostrei. E só isso já pode render outras coisas, outros textos, outras conversas. Mas uma coisa de cada vez e tudo a seu tempo.

Também não dá pra fazer diferente no quesito escuta. Continuarei meu caminho com meus ouvidos trabalhando mais do que minha boca, com certeza. E minhas mãos trabalhando mais do que os outros dois juntos. É assim que eu sou e é assim que seguirei. E o que vier a mais a gente vai acertando no caminho.