Espelho

Olho fotos antigas e quase não me reconheço mais.
Onde foi que eu mudei? Em que parte do caminho se deu o início do fim daquela pessoa, em que ponto me tornei o que vejo hoje no espelho? Creio que não há uma resposta única para estas questões. Há, sim, uma desconstrução e uma reconstrução constantes de tudo o que eu achava que era inerente a mim.

É inevitável pensar se a mudança maior veio com a maternidade. Gestar, parir e mergulhar nas águas fundas da maternidade transforma a gente de uma maneira muito forte. Vira a gente do avesso. Sacode toda a estrutura. Não dá para ser a mesma pessoa depois disso, não mesmo. Também tem o fato de que, fisicamente, eu também mudei. Emagreci 10 kilos do que eu pesava antes de engravidar – agora já ganhei uns 3, mas mesmo assim é outro corpo, outro rosto.

Não sei. Pode ser que tenha sido isso, sim. Pronto, resposta dada, dúvida sanada, podemos passar para o próximo questionamento existencial. Né? Acho que não. Tenho cá em mim a sensação de que o pertencimento que sinto hoje, comigo, me abriu os olhos para outras questões que antes nem me eram importantes. Como se, com o fato de que um “buraco” tivesse sido preenchido, eu pude, enfim, olhar para os outros que também esperavam para serem notados. Ao mesmo tempo em que me sinto muito bem dentro do papel de mãe, que é uma coisa que eu sempre quis muito, desde muito nova, também me sinto indo em outras direções, querendo outras coisas, descobrindo novos olhares, novas vontades, novos quereres. Coisas relacionadas tão somente a mim, mas que vieram à tona com a entrega total que fiz a outra pessoa.

Definitivamente, não caibo em uma caixa só. Não sou “mãe”, ou “escritora”, ou “fotógrafa”, ou “psicóloga”, ou qualquer outra coisa que se use para definir, enquadrar as pessoas, como se categorizar fosse o caminho mais fácil para o conhecimento. Pode até ser o mais fácil, mas não é o melhor, nem o que me serve. Nunca consegui achar uma só palavra que pudesse vir depois do meu nome em apresentações e que me deixasse confortável com o título, apesar de gostar de usar “estudante”, porque estou sempre indo atrás de conhecimento, seja pela via que for. Talvez aprendiz soe bem também, vou testar para ver como me sinto. O fato é que há sempre algo novo, algo que quero buscar, lugares onde quero ir, fotos que quero viver, palavras que quero escrever, processos que quero entender.

Tanto que já fiz, tanto que ainda está por vir. A pessoa que eu sou hoje me parece distante da pessoa que fui há quatro anos atrás – e finalmente isso começa a fazer sentido, porque talvez queira dizer que eu realmente levantei e fui, a despeito de qualquer coisa que pudesse estar me segurando, literal ou metaforicamente. Significa que eu vivi, que me entreguei e que estou usando a minha cota de dias aqui nesse mundo louco com boas doses de movimento e tentativas, e algum descanso entre uma coisa e outra, porque esta sou eu. Acho que aquela Marina, de antes, também se espantaria se pudesse se ver dali há um tempo, mas que bom que ela não soube, porque é esse não saber que torna o caminho mais ativo. Fico olhando para a Marina de hoje, bem ali no espelho, e penso onde foi que nos encontramos, será que ela sempre esteve aqui e eu é que nunca a tinha notado. Ela não me responde, apesar de parecer concordar com os questionamentos. 

Apago a luz do quarto, deixo as fotos no arquivo e sigo meus dias com essa ideia na cabeça. Alguma hora a resposta chega, mas talvez até lá já seja um outro rosto que terei que aprender a reconhecer como meu no espelho.

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texto de uma frase só

– fica?! pois foi-se. e a mandou em seu lugar. pra preencher o vazio que ficou. ficou. era maior do que a encomenda e o buraco bem maior do que antes. rasgou. fez doer até ficar de um tamanho confortável pra ela. folgada. foi logo a primeira coisa que eu soube, antes mesmo de saber sua graça. mas que desgraça! doi mais que cotovelo ralado ou espinho no pé. e dizem que depois de um tempo passa. mas é trapaça. vou é me acostumar com ela aqui. o que dá no mesmo, só que pior. de tanta companhia que já tive, a mais chata. a insistência da ausência. densa. as grandes enormes que mal cabem em mim, e também as mais discretas. muito do que passou, de quem não veio. pessoa bicho planta e até objeto. do concreto. aquele longo abraço na tarde de segunda. risada frouxa sem mais nem porquê. dos planos que se desfizeram. e até de mim. tem quem diga que exagero. então reitero.

 saudade é uma merda.
 e fim.
(escrevi em 2013, mas podia ter sido hoje)