“é simples assim”

 

Acordar com o sol nascendo, preparar uma bela mesa com café fresco, frutas, pães e outras coisinhas mais, na varanda. Caminhar na beira da praia. Parar para contemplar o mar. Molhar os pés. Meditar. Escrever. Brincar com a minha filha. Estar presente no presente. Andar de bicicleta no fim da tarde. Ver um filme no sofá. Ir ao cinema. Sair pra namorar. Fazer nossa própria comida. Quem sabe até plantar. Falar com quem amo ao telefone. Abraçar. Ler antes de dormir. Rezar. E então acordar. 

Fazendo o exercício (que eu mesma inventei) de pensar em como seria um dia lindo de uma vida boa. Um dia onde acontecesse tudo que gosto e que me faz bem, e que eu tenho vontade que façam parte ativamente do meu cotidiano. Fiquei olhando para as palavras como se fossem fotografias, cada uma me mostrando cenas em que quero estar. Sorri. Olhei com mais calma, demorei mais em algumas, mudei outras de lugar. E percebi. Da minha lista, ainda tenho algumas coisas para conquistar. Para umas preciso de mais um punhado de tempo, outras só de ajustes práticos. Ali no meio, consegui vislumbrar as cenas que eu já tenho, veja só que coisa boa! Há também as que estou aprendendo.

A verdade é que, parando bem para analisar, nem tudo está fora de lugar como algumas vezes eu insisto em ver. Quando a gente cai na armadilha de olhar para o que falta, é automático a crença de que falta muito, as vezes até tudo. Aconteceu essa semana, inclusive. Um sentimento ruim, um peso, um achar que está tudo estagnado. Um cansaço. Vontade de sentar na beira da estrada pra descansar, sabe como?

E quem disse que não podemos fazer essa pausa, não é? Ela é necessária tanto quanto o agir. Hoje eu deixei a bagunça e as cobranças de lado, junto com todos os pensamentos de que “não está dando certo”. Literalmente sentei no meio da bagunça e fui arejar a cabeça. Li, ouvi música, rascunhei algumas palavras. E me permiti pensar em dias melhores, em dias bons, ensolarado se tiver de ser ensolarado, nublado se assim o for. E levei adiante a ideia de colocar em perspectiva as coisas que ando querendo tanto, algumas delas expostas lá no começo do texto. E não é que algumas eu já tenho, mesmo nessa vida de agora que até horas atrás eu achava estar toda desconjuntada? Não preciso que tudo esteja perfeitamente desenhado para só então me sentir bem. Não precisa ser assim. Se for, o caminho há de ser muito penoso, porque só olharemos para o destino, sempre para o que ainda não chegou. Eu, por exemplo, estou sempre querendo algo novo, inventando novos desafios. Mas é também pelo andar que faço isso, é importante que haja bem querer também no processo. Adoro a sensação de estar em movimento.

Não é que um botão tenha sido acionado e, de repente, sem mais nem menos, eu tenha passado a enxergar tudo cor de rosa, sem defeitos nem falhas. Foi o olhar que foi ajustado. Antes é que estava tudo meio nublado. Agora consigo enxergar com mais clareza as cores todas juntas, vibrantes e vivas que compõem o cenário real da minha vida. Com caos, sim, porque não há criação sem movimento. Mas com belezas e conquistas também.

E agora deixa eu levantar e seguir caminho, porque a estrada é longa e ainda há muito para se fazer (e ver, e receber, e agradecer). Vamos avante!

quietude

Toda noite é a mesma coisa. Depois que a pequena dorme, meu marido senta para ler ou assistir qualquer programa na tevê e eu faço mais ou menos a mesma coisa, só que em outro canto da sala. É o nosso momento de silêncio compartilhado. Depois de um dia cheio de sons, é bom ter essa pausa. É quando eu escrevo com mais fluidez, quando consigo ler sem interrupções, quando faço minhas coisas. Algumas vezes assistimos uma série ou algum filme juntos, ou conversamos sobre algum assunto do momento – acho que não preciso mencionar que é óbvio que temos muita interação, diálogo, discussões e tudo mais que cerca a vida de duas pessoas que convivem intensamente – mas o tempo do silêncio sempre está por aqui.

Sempre gostei do silêncio. De estar em paz comigo mesma, confortável, sem cobranças ou olhares inquisitivos em busca de respostas imediatas a conversas que nem sempre eu tinha com o que contribuir. Talvez por ser introvertida, falar nunca foi uma das coisas que mais me motivavam, tanto é que nas rodinhas da escola ou com amigos, eu ouvia muito mais do que dava opinião. Ouvir, isto sim, sempre foi prioridade. E para ouvir é preciso silêncio. Mas nem sempre foi fácil viver assim. Por muitas vezes ele foi interpretado como qualquer coisa que não o que de fato significava: minha vontade de ficar calada. Ou seja, nem sempre fui compreendida. Quase ninguém entendia, nem sei se havia algum esforço em entender, na verdade, para mim sempre pareceu que as tentativas eram todas dedicadas a fazer com que eu percebesse o quanto aquele comportamento podia me prejudicar algum dia (?). Não sei o que pensavam exatamente, sei que estranhavam. É que para muita gente o silêncio é constrangedor, é ruim, é falta de afinidade, falta de educação e nem sei mais o que. Coisas que já ouvi ou li por aí. Cheguei a pensar se não tinha algo de errado comigo, ou se algum dia essa angústia de ter que corresponder aos outros teria ao menos uma trégua.

Com tudo isso, acabei me tornando uma pessoa ansiosa, inquieta, agitada. Era minha mente tentando se enquadrar num lugar que eu claramente não pertencia, mas que na ausência de qualquer outro espaço, me servia de referência. Até que eu conheci meu marido. Ao contrário das linhas que acabei de escrever, com ele eu conversava. Passávamos horas falando, falando, falando. Certo dia, estávamos lá em casa e o assunto simplesmente acabou. Me recostei no peito dele, fiquei e, quando dei por mim, estávamos em silêncio. Estávamos ali apenas compartilhando o momento, cada um absorto em seus próprios pensamentos. E estava tudo bem. Ninguém cobrando, ninguém querendo agradar. Apenas duas pessoas compartilhando o mesmo espaço e sentindo-se bem com aquilo. Foi a primeira vez que pensei ter encontrado a “pessoas certa” pra mim. Se ele respeitava o meu silêncio, já era meio caminho andado.

E foi. Tem sido esse o nosso caminho. Por vezes a gente fala pra caramba, sobre tudo e sobre nada, até altas horas da noite. E em outras tantas, sentamos juntos no sofá e nos deixamos ficar só curtindo o que cada um estiver fazendo. Quietos. Em silêncio.

E de lá pra cá, tenho a sensação de que muita coisa mudou. Sim, ainda acontece de eu não saber o que falar em determinadas situações e incontestavelmente ainda prefiro o silêncio do que meia dúzia de palavras ditas em vão – ainda mais em tempos em que todo mundo tem uma velha opinião formada sobre tudo. Talvez por fora eu não tenha mudado tanto assim. Talvez o que mudou foi só o fato de eu ter aceitado que o silêncio faz parte de mim, que eu não preciso querer fugir dele. Não foi o meu marido, direta e pessoalmente, quem me ensinou a ser assim. Sempre fui, só tentava guardar lá no fundo do armário, porque aqui fora não estava sendo muito bem aceito. Ele só confirmou que é bom que caminhemos ao lado de quem não quer nos mudar – porque não há mesmo outro jeito, a não ser viver o que somos, inteiramente. E isso inclui não atender às cobranças que depositam em nossos ombros, a desapegar de bagagens que muitas vezes nem nos pertencem. Foi bom descobrir isso a tempo de poder viver uma vida mais tranquila, com menos expectativas de alcançar padrões que não fazem o menor sentido na minha pele. E com mais espaço para contemplar os meus silêncios e outras esquisitices que eu quiser inventar pelo caminho.