Tratado de paz comigo mesma

De repente, você percebe um abismo.

De um lado, existem todas as coisas que você pensa, todas as coisas que você acredita, seus sonhos, seus desejos, suas ambições, seus valores. Aquele mundo que você tem certeza que te te guia e, de certa forma, te define.

Do outro lado, existem todas as coisas que você faz. Todas as suas ações, suas iniciativas, sua prática, seus passos, sua caminhada. Ora correndo, ora andando, ora parada mesmo, para descansar. Aquele mundo que você tem certeza que trilha com as próprias pernas.

E um dia você percebe um abismo onde deveria existir uma ponte. De repente, não mais que de repente, como um despertar assustado depois de uma noite turbulenta, você se dá conta de que existem duas pontas soltas onde deveria existir uma laço. Que muita coisa que tem feito não tem muito a ver com o que pensa e deseja.

Veja bem, você sabe que no mundo real não tem como ser do nosso jeito o tempo todo. Que muitas vezes precisamos fazer coisas que, de outro modo, não escolheríamos fazer. É a vida, afinal. Natural que seja assim em muitos momentos. Não foi isso que você percebeu. O fato é que se deu conta de que nem a sua própria voz você tem ouvido ultimamente – aquela que te guiava, que também pode ser chamada de autoconfiança ou coisa assim. A voz que vem de fora, que não sabe muita coisa sobre o que se passa dentro de você, tem tido mais repercussão do que a única que sabe o que realmente está acontecendo: a sua.

E a partir daí muita coisa começa a se explicar. O motivo das suas insatisfações. Aquela tristezinha de vez em quando. A cobrança incessante. Aquele perfeccionismo que passa a incomodar. O medo de errar. Tudo isso é a voz do outro sobre você. Uma voz tão alta que muitas vezes você acha que vem de dentro da sua cabeça, que é sua – e é assim que ela quer parecer mesmo. E é ela que tem te levado a caminhar sem rumo por aí.

Diante disso, você faz o que a mais sensata das pessoas faria: sai correndo desesperada chorando sem olhar pra trás, se fecha num quarto e pensa em como dar game over e começar de novo, dessa vez do jeito “certo”. A boa notícia é que não existe jeito certo, ao que tudo indica. Nem dá para voltar atrás todas as vezes que dá merda. Mas dá para aprender algumas coisas.

A primeira é ser gentil consigo mesmo. É preciso uma dose grande de coragem para admitir que quer mudar. Se apegar na culpa não costuma levar a lugar algum, só a mais lamento e mais cobrança. Você precisa se abraçar e se perdoar. Depois, é legal descobrir de onde vem essa voz e arrumar um jeito de calá-la – ou ao menos diminuir seu volume consideravelmente, até que se ouça de novo sem interferências. Para conseguir diminuir esse volume (céus, como essas vozes gritam, é de enlouquecer!), as vezes a gente precisa de um tempo mesmo, normal. As vezes a gente precisa de distância. Ou de silêncio. Ou de falar com alguém a respeito. De qualquer coisa que te coloque em contato com o que vai aí dentro. Ouça-se com carinho e seja gentil, não se esqueça.

E no fim, a partir de então, esse pode ser um bom jeito de começar de novo. Escolhendo fazer diferente, agora de acordo com o que a sua voz diz, não mais a do outro. É um desafio dos grandes, esteja preparada. Porque se houver descuido, o volume aumenta de novo e a sua será abafada, como num ciclo ruim. Não se esqueça de que para não deixar que isso aconteça, é preciso continuar fazendo o que fez para voltar a se ouvir: cuidando de você no dia-a-dia e buscando encontrar aquela paz que mora onde a gente se sente bem. Tem que ser um hábito mesmo, assim com a gente toma banho e escova os dentes. Prestar atenção na autoestima e dizer ao espelho: a minha própria voz é mais importante e sabe mais de mim do que a voz do outro, e é ela que eu escolho ouvir hoje. Fazendo assim um dia de cada vez pode realmente funcionar. E claro, um bom fone de ouvidos também vai te ajudar a seguir em frente.

Boa sorte! – disse ela ao espelho como se falasse a uma amiga. E foi viver seu dia.

A lista

Eu fiz uma lista dos meus sonhos e hoje quero falar sobre isso. Sobre fazer uma lista e o que ela representa, não sobre os sonhos em si. Era um exercício de coaching e eu tinha que dizer em voz alta os meus maiores sonhos da vida.

Primeiro, é importante pontuar o quanto eu percebi como a minha mente anda me sabotando. Era como se eu pensasse em algo e, imediatamente, enxergasse os percalços e poréns que precisaria enfrentar para chegar até eles, e então eu nem me animava em escrever aquilo, deixava pra lá. Como se obstáculos fossem só ruins. Como se isso fosse o suficiente para não sonhar mais. Quando eu percebi essa falha, tentei superá-la e segui dizendo em voz alta as coisas que eu mais quero na vida. Acho que esqueci algumas, porque eu sempre esqueço, mas foi um ótimo exercício.

Em algum momento entre as minhas tentativas e o meu silêncio, ouvi a seguinte frase: me diga quais são os seus maiores sonhos, sem julgamento. Não estou dizendo apenas que eu não vou julgar o que disser, estou falando sobre você: não julgue os seus próprios sonhos.

Sabe aquele barulhinho da ficha caindo? Eu ouvi. Ouvi várias fichas caindo quando percebi que os obstáculos que a minha mente enxerga existem, em primeiro lugar, dentro dela. E por mais que eu diga que são dificuldades reais, de ordem prática, elas nunca serão resolvidas se eu continuar insistindo que são um problema. Que são difíceis. Que não está na hora.

A mudança é uma porta que só abre por dentro, como dizem por aí.

Então eu guardei essa luzinha no fim do túnel para contemplá-la com mais calma depois e segui no exercício. E no final, quando achei que já tinha dito o suficiente, surgiu uma outra pergunta direcionada a mim: o que me impede, hoje, de realizar esses sonhos? A resposta veio sem muito pensar. Nada. Quer dizer, tirando as coisas que eu preciso de algum muito dinheiro (tipo a casa, por exemplo), nada me impede de realizar esses sonhos. Pelo menos no meu ponto de vista nada me impede. E é aqui que entramos na questão. Se não impede, porque não fazer?

Eu tive um tempo de reflexão até chegar a essa resposta, mas foi gratificante perceber. Eu não tenho pressa de realizar todos aqueles sonhos da lista simplesmente porque eu estou vivendo um dos grandes agora. Não estou muito preocupada em não soar piegas, porque algumas coisas são mesmo e tudo bem. O fato é que ser mãe sempre foi um dos meus maiores objetivos, sonhos, desejos e não sei mais que palavra usar. Não só gestar e parir, mas acompanhar de perto, com presença e acolhimento, o máximo de tempo que eu puder ou conseguir. Exercer a maternidade de forma prática no dia-a-dia. É importante pra mim. Creio que é importante para a minha filha também.

Eu ouvi “o que te impede  de realizar seus sonhos hoje?” e minha mente focou na palavra “impede” como se a resposta fosse uma barreira intransponível que eu tivesse de vencer, ou pelo menos perceber, ali naquela tarde. A verdade é que eu não tenho que vencer nada. O que eu estou vivendo não é impedimento nenhum, muito pelo contrário, é o que coloca meu mundo em movimento todos os dias. Já estou vivendo um dos meus grandes sonhos da lista, não tem porque ter pressa para passar para a próxima fase. Ter essa clareza das coisas me deu mais tranquilidade. Talvez a melhor resposta àquela pergunta fosse apenas uma: o tempo. Chegará o tempo em que todas aqueles itens estarão ticados, e outros adicionados, e assim por diante num ciclo sem fim. Por ora, estou curtindo meu presente e aproveitando as oportunidades que eu tenho de aprender e de não ficar ansiosa querendo vencer corridas que só existem na minha cabeça. Elas não levam a lugar algum.

À parte disso, obviamente, existem coisas que eu posso fazer (e já ando fazendo) para chegar aos meus próximos horizontes. Algo como ir organizando a vida, arrumando o caminho e praticando um pouco a cada dia as várias coisas que eu gosto e quero fazer. É também por isso que as tardes com a minha coach me ajudam tanto. Mas isso já é assunto para um outro dia.