O casal da mesa ao lado

Entramos na lanchonete felizes por ser uma tarde qualquer da semana – o que significa, em outras palavras, que o local estava vazio. Sentamos numa mesa perto da porta, porque não havia espaço suficiente para um carrinho de bebê em outro lugar, o espaço entre as mesas era limitado. Enquanto eu olhava o cardápio, meu marido tirou a bebê do carrinho, que foi prontamente explorar o novo lugar. Fizemos nosso pedido. E encaramos aquele belo paradoxo da vida com filhos. Enquanto queríamos descansar, tomando algo bem gelado, depois de andar muito debaixo do sol, nossa pequena bebê queria o oposto, já que esteve o tempo todo sentada, na sombra. Enfim. Cada um com a sua questão. A liberamos e ficamos de olho, vendo o que ela faria. Não dá para exigir que um bebê de 14 meses sente-se a mesa e apenas observe placidamente o local. Ela queria andar, ir olhar a rua, dar oi para quem passasse por nós. Quando o suco chegou, ela veio se refrescar também. Ficava parada somente o tempo de sugar o canudo e logo descia do banco novamente. O pai dela estava sempre ao seu lado, claro, impedindo que ela fosse para longe ou para o meio da rua.

Enquanto isso, chegou um casal jovem, de moto. Entraram, fizeram o pedido direto no caixa, decididos e objetivos. Sentaram-se numa mesa ao nosso lado e conversavam enquanto esperavam. De vez em quando olhavam a bebê ali por perto, sorriam e seguiam com o papo tranquilamente.

Nosso sanduíche chegou. Fizemos uma tentativa de sentarmos os três juntos, mas a paciência da pequena durou pouco. Em locais onde têm aquelas cadeiras para bebês ela até fica e participa da refeição junto com  a gente – o que quer dizer, também, que escala a cadeira e tenta alcançar o sal, os guardanapos e o que mais estiver disponível. Só que não era o caso ali. Não tinha cadeira, tinha apenas uma vontade dela de ficar lá na rua. Fui comendo enquanto meu marido fazia companhia pra ela. Comi sozinha, as vezes trocando rápidas palavras com ele quando dava, ou olhares, ou sorrisos. Pelo menos consegui comer com calma, o que nem sempre é possível. Depois, era hora de trocar o plantão, como gostamos de dizer. Fui ficar com ela enquanto ele comia seu sanduíche, que a essa altura já devia estar frio. A pequena começou a se zangar, não entendia porque não deixávamos que ela descesse a calçada direto pra rua. Antes que começasse a chorar (mais), a peguei no colo e avisei ao marido que estávamos indo à padaria ali ao lado. Fomos, compramos pão para o café da tarde, pagamos, saímos e ele já estava terminando. Ela se distraiu, ganhou pão de queijo, olhou as vitrines. Ele conseguiu comer.

E o casal ainda estava na mesa ao lado, comendo seu açaí e papeando tranquilamente. Foi inevitável pensar em como são as fases da vida e o quanto as coisas mudam. Há algum tempo atrás podíamos ser nós, marido e eu, ali sentados como um casal normal numa tarde qualquer. Hoje a nossa realidade é outra, e não reclamo disso. Certamente nós também já fomos aquele casal, só que na época eu ainda não gostava de açaí, então a gente se acaba no sorvete mesmo. Eu não senti vontade de estar no lugar deles. Ao contrário, eu estava feliz por ter conseguido comer sossegada. Mesmo que não tenha tido companhia, mesmo que possa ter parecido um pouco turbulento para quem visse de fora, foi apenas uma tarde qualquer na nossa rotina. Mais uma vez, cada um com as suas questões.

Será que aquele casal estava tão despreocupado quanto eu achei que estivessem? Será que não era uma escapada estratégica no meio de uma semana turbulenta, apenas para espairecer um pouco? Será que era a única oportunidade de estarem juntos sozinhos? Ou só tédio mesmo? Minha cabeça, que trabalha o tempo todo, pensou em todas essas possibilidades enquanto saíamos dali.

Aprecio esses momentos. Momentos que me fazem perceber com mais clareza o quanto a roda-viva gira e como as coisas podem mudar num instante (ou em vários). A gente faz o possível para acompanhar o movimento e não descompassar a dança.

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o plano

Eu tinha um plano de ficar algumas semanas no nosso sítio lá no norte de Minas Gerais no fim do ano passado, desconectada, apenas ouvindo as histórias que a minha avó quisesse me contar e escrevendo cada uma delas. Talvez eu publicasse, talvez não. Mas era um plano legal, já tinha até combinado com ela.

A vida aconteceu de um outro jeito, entretanto. É sempre mais ou menos assim, não é? Comigo é. Nossos dias se desencontraram e, quando eu estava lá, ela estava aqui. Agora que estou aqui, é lá que ela está. Esses dias até comentou com o meu pai que gostaria que eu estivesse lá também. Era domingo, estava chovendo, ela estava sozinha, seria o cenário ideal para os nossos papos sobre antigamente. Deu vontade de pegar o primeiro ônibus e voltar pro meio do mato.

Minha avó é uma mulher forte, até meio durona, faz mil e uma coisas – de doce, polpa de frutas, até arriar cavalo e subir em árvores. É claro que ela tem muitos causos para contar. Alguns ela já contou, claro. Sobre como ela se achava velha por se casar aos 18 anos. O banho em flor de laranjeira para o grande dia. O amor dela pelo meu avô. O nascimento do meu pai. A infância dos filhos. A vida como ela foi. Quero ouvir tudo de novo e guardar num potinho. Ou num livrinho, no caso.

O plano não deu certo para a data que escolhemos, mas ainda existe, é claro. Não sei quando conseguirei viajar até lá novamente, mas quero que seja em breve. Quero resgatar algumas memórias da família. Quero conhecer melhor a mulher que a minha avó é. Nem preciso de um plano para saber que vai ser uma experiência única.

Rua 8, nº 8

O mundo começa pra mim a partir daquela casa. Ali, onde eu morei dos 2 aos 11 anos. As primeiras lembranças, as primeiras referências. Minha infância inteira dentro daqueles muros.

Minha mãe diz que me colocou na escolinha por causa do muro. Não o muro da escola, o muro da nossa casa mesmo. É que eu chorava muito ali dentro. Depois de tentar descobrir, em vão, o que se passava com uma pessoinha tão pequena, e sem conhecer nenhuma outra criança naquele novo bairro, ela resolveu me matricular na escolinha ali pertinho, pra ver se socializando um pouco as coisas amenizavam. Não sei ao certo quando se deu a descoberta, mas não foram as tardes fora de casa que me secaram as lágrimas. Acontece que eu não gostava daquele muro. Eu chorava porque me sentia presa. Era um muro alto, que cercava nosso quintal todinho e nos separava da rua. Cumpria muito bem seu papel de muro. Pra mim, que não entendia de papel nem de concreto, só sabia chorar pela visão que me era tirada por aquela fortaleza cinza. Eu queria liberdade, eu queria ver a rua, as pessoas, os carros, os cachorros. Eu queria ver a vida acontecendo lá fora, mesmo que a visão fosse só a rua vazia na maior parte do dia, porque era um bairro muito sossegado, o nosso.

Com o tempo eu fui entendendo que o muro não era um problema. Ou que eu não precisava focar só nisso, pelo menos. Tinha muita coisa ali dentro para aproveitar. Tinha um quintal gramado muito legal, que me fazia ficar com as pernas coçando quando deitava ali. Tinha pé de romã e pé de acerola, onde de vez em quando eu tentava montar uma cabana, além de capim-santo e hortelã. Tinham as roseiras que meu pai cuidava. Eu tinha espaço lá dentro para brincar e ser feliz. Além disso, descobri a incrível funcionalidade dos portões – essas portas grandes de metal que servem para nos levar para fora. Como dizemos lá em Minas, eu amava ficar na porta da rua. Eu brincava de amarelinha, de pega-pega, de elefante colorido, andava de bicicleta. Eram muitas possibilidades. Minha mãe ficava sentada na calçada enquanto eu brincava – vezes sozinha, vezes com alguma amiguinha ou amiguinho. Porta da rua era vida. Era liberdade. Eram tardes inteiras de infância livre e joelhos ralados e pés sujos de poeira.

Minha infância ainda mora naquela casa, o que quer dizer que ela ainda está em mim. O muro, que de início era sinônimo de desespero, se tornou parte do cenário, naturalmente. Ali naquela casa eu aprendi, desde cedo, coisas que ainda trago comigo, mesmo estando tão longe de lá, há tanto tempo. Existem maneiras de driblar o que nos desagrada, mesmo quando é tudo tão concreto e intransponível. Existem alternativas. E existe também o tempo, responsável por consolidar e tranquilizar tudo ao seu redor – é só nos lembrarmos de explorar o que já temos e sair para dar uma voltinha vez ou outra enquanto ele faz o que tem que ser feito.

Puxadinho

Já era noite, a estrada não era duplicada, a sinalização não era das melhores. Estávamos cansados do (segundo) dia inteiro dentro do carro – passava das dez da noite -, isso sem contar o fato de ter tantos faróis batendo nos olhos, como cansa!

Resolvemos que era hora de parar. Ali onde estávamos, Bahia, rodovia estadual, sem uma cidade maior por perto, não havia tantas opções assim. Eram realmente bem escassas, aliás. Quando chegávamos em algum lugar com placa de hotel, vinham três ou quatro caras, quase entrando na frente do carro, abordando de forma bem direta, pressionando pra gente entrar e coisa assim. Não quisemos. Seguimos. Chegamos num lugar que parecia mais calmo, também na beira da estrada. Meu pai entrou para perguntar se ainda havia quartos disponíveis e quanto seria. Voltou dizendo que só tinha um quarto, só que não no “hotel principal”, e sim numa espécie de puxadinho. Ele tinha ido ver e disse que era simples, mas legal. Como disseram que só havia uma cama, ele queria que eu entrasse com a bebê e meu marido, enquanto ele e minha mãe descansassem no carro mesmo.

Entrei para ver o quarto. Primeiro entrei numa sala, onde tinha apenas um sofá. E duas portas – apenas uma daria no quarto, o outro estava vazio mesmo, fechado, e gostamos dessa parte, pois ali estaria somente a gente, com privacidade. No quarto havia apenas uma cama comum e um guardarroupa. Em cima da cama, duas toalhas e uma colcha. Enquanto eu via o local, meu pai conversou com o proprietário, que disse que colocaria um colchão de casal ali na sala, assim daria para dormir todo mundo. Aceitamos.

Ao lado da sala havia outro cômodo, que levava ao banheiro. Tinha outro sofá e um outro móvel. Percebemos que a outra porta que tinha ali, fechada, dava na cozinha. A esposa do moço apareceu, me ofereceu um copo de água, perguntou se eu queria algo pra bebê, deu boa noite e fechou a porta.

Tomamos um banho quentinho, depois dormimos como anjos, nós no quarto, meus pais na sala. Quando se está viajando de carro o dia inteiro, tudo o que você quer quando chega a noite é deitar numa cama e esticar as pernas. Os lençóis (com estampas coloridas) tinham cheirinho de amaciante.

Não foi como se sentir em casa, no sentido figurado. Realmente estávamos na casa do moço e nem sabíamos.

No dia seguinte, mesmo saindo bem cedinho, eles fizeram café com beiju (tapioca) pra gente.

Seguimos viagem.
E algo dali ficou em mim.