Sobre o mundo, sobre nós

Gente, eu sei.

Eu sei que há, em muitas pessoas, uma indignação seletiva. Que choram mais por Paris do que pelo desastre em Mariana, ou pela chacina em Fortaleza. Eu sei. Eu sei que o nosso governo se pronunciou primeiro sobre a Europa, enquanto o silêncio sobre as nossas mazelas chega a doer. Eu sei que a vida na periferia e nas favelas não é nada fácil nem bonita. Eu sei porque já vivi lá, porque tenho família lá. Eu sei que o mundo está todo ao contrário. Para onde olhamos, em todo lugar, a coisa está desmoronando a olhos vistos. E eu nem comecei a falar sobre os direitos das mulheres. Eu sei. Sei também que precisamos falar sobre isso. Precisamos mostrar o que a mídia teima em esconder. Precisamos trazer para pauta o que está debaixo do tapete. O ativismo é um bem ultra necessário, infelizmente. Podia ser menos necessário, ia significar que as coisas estão melhorando. Mas por enquanto é o que temos. Precisamos do ativismo, todo dia.

Eu só acho que está confuso.

Algumas pessoas ficam revoltadas porque outras pessoas só se revoltam pelo que aconteceu em Paris. Aí começam a falar mal, a compartilhar as outras infinitas dores diárias do mundo. Isso, pra mim, também é indignação seletiva. Se ligarmos a tevê só veremos sobre Paris, eu sei. Mas se continuarmos agindo como se tudo o que passa na tevê é o mais importante, eles continuarão assim. E é aí que precisamos então compartilhar as outras coisas, porque não passa na tevê, é o que vão me dizer. Sim. Mas, e quando a poeira abaixar, será que continuarão a fazer isso? Ou mais ou menos, só de vez em quando, dependendo do assunto?

Na gana por querer que nos indignemos por tudo, só o que estão fazendo é colocar mais lenha na fogueira.

As meninas do …com Lola compartilharam uma mensagem bem bonita no instagram, dizendo que quando fecham os olhos enxergam luz, e continuarão a fazer o bem, seguir no bem. Eu concordo tanto com elas. Vamos olhar e espalhar palavras sobre quem ajudou, sobre quem acolheu. Não sejamos nós os que também só sabem atacar. É claro que me dói o que aconteceu em Paris. Assim como dói todas as noticias ruins que me chegam aos ouvidos, sempre. Eu sinto muito. Eu só acho que a voz que escolhemos usar, muitas vezes, incita mais revolta e ódio do que outra coisa. Como queremos um mundo melhor para os nossos filhos, e para nós mesmos também, se só espalhamos mensagens tristes? Isso também é atitude. E é mais: é um ciclo vicioso que precisa ser rompido.

Se voltar contra quem só compartilha um tipo de notícia não te faz melhor do que essa pessoa. O que Pedro me diz sobre Paulo diz mais sobre Pedro do que sobre Paulo. Só para registrar: empatia é outra coisa. E se, ao invés de falar mal de quem não consegue ter a mesma visão de mundo que você, cada um fizesse um pouquinho com o que tem, com o que consegue, para que cada cantinho do mundo recebesse mais atenção? União é isso. Cada um dá o que tem, e quando cada pouquinho se juntar com o do colega ao lado, indo um passinho de cada vez, talvez a gente consiga caminhar para mais longe, pois estaremos mais fortes.

[ Em tempo: isto aqui não é uma crítica a quem critica. Foi só um rompante, um desabafo, quando me vi num feed tão cheio de revolta, de todos os tipos. Fiquei triste também por isso. Como não soube o que fazer e não quis engrossar esse assunto por lá, desaguei aqui. ]

É preciso confiar

Eu queria uma resposta. Sabe, acho que não seria nada mal sabermos algumas coisas de antemão. Daria para evitar várias fadigas e anseios, pra dizer o mínimo. Ok, talvez seja assim só pra mim que sou ansiosa. Quantas dores de estômago já não senti apenas por ansiedade? E as mãos suadas? Mas a vida não obedece regra nenhuma, não é mesmo? Muito menos as que a gente quer que ela siga.

A verdade é que não há garantias.

Quando me dei conta disso metade da minha ansiedade se diluiu no espaço. E tenho cá pra mim que a maternidade me ajudou muito nesse aspecto. Explico. Não dá para garantir que o parto vai ser exatamente do jeitinho que a gente sonha e planeja. Podemos nos preparar, ler, ouvir relatos, assistir vídeos, ter uma boa equipe. Só depois que passa é que a gente sabe como é que foi. E isso pode ser frustrante para muita gente, eu sei, mas quanto mais cedo aceitamos, melhor lidamos. Não há como ter nenhuma garantia de praticamente nada na vida materna. Não dá pra saber se o bebê vai dormir a noite toda, nem se vai mamar muito ou pouco, muito menos se vai comer toda a comida do prato. Existem muitas regras, inúmeras teorias e outras tantas abordagens para cada um dos temas que cerca a vidinha dos bebês. Nos falam para fazer desse jeito, e não do outro, porque é mais eficaz. São muitas recomendações. Tudo por alguma garantia. Tudo ilusão.

É óbvio que muita coisa ajuda, sim. Não estou dizendo que tudo é falácia e intriga da oposição. É claro que acolher um recém nascido, dar colo, embalar vai ser infinitamente mais eficaz do que deixá-lo chorando sozinho no berço. Mas pode ser que o bebê não pare de chorar imediatamente com essas atitudes. Minha filha tinha crises de choro no fim do dia e nunca ficou sozinha, pelo contrário. Eu continuava fazendo o que meu instinto e minha consciência sabiam que tinha que ser feito, mas parece que muitas vezes ela só parava quando esgotavam as lágrimas mesmo. Ou algo assim.

As pessoas me perguntam se ela come bem, se ela dorme a noite toda, entre outras coisas. Minhas respostas parecem sempre evasivas demais para quem ouve, eu imagino, porque eu posso até responder afirmativamente, porém não tenho nenhuma fórmula. E não é que as coisas sejam fáceis aqui em casa. Todo mundo tem dia difícil e dia feliz. A maioria deles são difíceis e felizes, quase que ao mesmo tempo. Qual é o segredo?

O meu segredo é que eu confio.
Eu confio no meu instinto. Eu confio nas demandas da minha filha. Eu confio no que aprendi com a teoria. Eu confio no que estou aprendendo na prática. Eu confio em mim, sabe?! Sei lá, tem muita coisa lá fora que desestrutura a gente. Muitos discursos inflamados, muito dedo na cara, muita inquisição. Existe muita coisa para nos desacreditar que o que estamos fazendo é bom, legal, isso aí, vai firme, uma hora os passos se acertam. Há que se fazer tudo milimetricamente calculado, até os tropeços precisam estar previstos para serem válidos. É preciso sempre pensar e focar somente no resultado. Não, gente, calma. Calma, respira fundo, toma uma água. Não precisa de todo esse script. Não o tempo inteiro, vinte e quatros horas por dia. Só precisa ser assim se a sua essência for assim. Tenho amigas que são muito realizadas tendo algum controle. Tabelas, listas, horários, rotinas definidas. Caso reste alguma dúvida, não é disso que estou falando. Faça o que for preciso para alimentar a sua segurança. Sabendo que a sua segurança mora em você, não no outro. Portanto, não é o outro que precisa aprovar ou não o que estiver sendo feito, a época da escola, das notas, das estrelinhas no caderno, felizmente, já passou.

O meu exercício é sempre estar atenta se o que estou fazendo me deixa tranquila. Tudo indica que tem uma fadinha morando na minha cabeça. Às vezes, ela me inferniza um monte, não tem como não perceber que algo saiu do ritmo. É mais sobre isso mesmo. Lembrando que eu não sou contra teorias, utilizo várias delas, inclusive. A questão é que não faço as coisas esperando uma recompensa bem lá no futuro. Ou não só por isso, pelo menos. Posso confiar nelas, desde que não passem por cima da minha crença em mim, que é algo que venho construindo há muito tempo.

Eu sei que no mundo em que vivemos é perfeitamente normal não confiar. É até esperado que seja assim, na verdade. Sinal de maturidade, de crescimento. Né? Não. Obrigada, mas não. Pode não ser fácil seguir por este caminho, mas é por ele que eu vou. Aliás, sobre as dificuldades e facilidades da nossa estrada, uma coisa: também é ilusão. Também é uma garantia que simplesmente não tem como existir. Absolutamente nada é só fácil. Não é fácil viver em família, não é fácil seguir e realizar sonhos, não é fácil acordar cedo, não é fácil ser saudável, não é fácil trabalhar todo dia, não é fácil estudar, não é fácil criar filhos, cachorros, plantas ou ideais. Resumindo, o fácil é um argumento muito vazio e sem sentido. Eu não quero o fácil. E é exatamente pelas dificuldades que precisamos confiar e seguir o que quer que seja que o nosso corpo, mente e coração estejam nos falando. Se, independente da direção, eu sei que há percalços e barreiras, que pelo menos sejam percalços e barreiras num caminho que eu mesma escolhi e me sinto bem em estar. O resto é história.

Talvez eu tenha mesmo que conviver com minhas mãos frias e outros efeitos adversos vida afora. Enquanto isso, e apesar do mundo torcer o nariz para minhas abordagens evasivas e pouco satisfatórias, a minha resposta é confiar.

sobre o ano vigente

Passei o ano inteiro sem dinheiro. O ano inteiro recebendo ajuda dos meus pais, as vezes lidando bem com isso, as vezes não. Às vezes, surtando. Chego a pensar que surtei o ano inteiro, mas não chega a tanto, é só a minha memória exagerada mesmo. Fato é que muitas das escolhas que meu marido e eu fizemos trouxeram a gente até aqui. Chegamos aqui com as nossas próprias pernas, mas chegamos tão exaustos que paramos para descansar e alguém precisou nos segurar nesse meio-tempo. Meio-tempo que já dura um ano. E agora que já descansamos, é hora de nos levantar e seguir em frente.

Quanto tempo eu gastei sofrendo por esta situação. Sofrendo mesmo, literalmente, chorando, me preocupando, brigando, dormindo mal, criando rugas e dores de cabeça. Sem perceber, me vitimizei. A gente nunca percebe, né. Pelo menos comigo é assim. Caiu minha ficha mesmo esses dias. Do tanto que eu poderia ter evitado de dor de cabeça se tivesse sofrido menos e feito mais. Talvez tivesse sido tudo mais fácil. Talvez muitas brigas nunca tivessem existido. Mas sabe de uma coisa? Eu não vou trocar um sofrimento por outro, não vou cair nessa armadilha.

Ficar lamentando o sofrimento sentido é sofrer duas vezes.

Colocar essa lente é minimizar o aprendizado que surgiu por conta de todo esse cenário. E nossa, como aprendemos!
Se hoje estou aqui, calma, relatando tudo isso é porque já maturei e elaborei muita coisa. Eliminei pendências e abri espaço para o novo. Não posso me esquecer disso. Espaço para o novo. Não é espaço para pensar a mesma coisa de um outro jeito.

Ainda estamos em novembro mas já comecei com o clima de nostalgia pelo ano vigente, por isso afirmo: 2015 foi o ano do crescimento.

É hora de caminhar com as nossas próprias pernas novamente.
Sinto uma imensa gratidão aos meus pais por todo amparo num momento tão importante das nossas vidas. Gratidão pela convivência e por tudo que mora nesta palavra.

Durante muitos meses eu afirmei que estava sendo um ano muito difícil, muito custoso. Que por mais que tivessem coisas boas a tirar do todo, o dia-a-dia estava pesando nos ombros. Eu não sei se foi o entendimento, se foi o tempo ou se foi só o vento que bateu aqui, só sei que de repente eu não quero mais que esse ano acabe voando para chegar 2016 e ser maravilhoso. Eu quero que passe na medida exata. Que traga o que tiver que trazer, que eu dou meus pulos para dar conta. Se é para mim, eu recebo e agradeço. Se não for, dispenso e agradeço também. Ainda é dois mil e quinze e ainda dá tempo de acontecer lindezas na vida. Ainda dá tempo de sairmos, respirarmos fundo e acharmos algum motivo para continuar a caminhada.