Eu acredito

Eu estava ali pela sala quando o celular do meu pai tocou. Atendi porque ele estava viajando e era seu aparelho de trabalho, então eu estava fazendo as vezes de secretária naquela semana. A conversa que se seguiu foi mais ou menos assim:

-Alô, eu gostaria de falar com o Antônio.
-Ele está viajando, quem gostaria?
-É a fulana, da Ancar Invanhoe, ele ganhou a promoção da Copa do Mundo do shopping Eldorado.
-O QUE? ELE GANHOU?
– Sim, ganhou uma viagem com acompanhante para a África do Sul, com tudo pago.
-UHUULLL ELE GANHOU UHUUULLL…
-Sim, mas ele precisa voltar de viagem para assinar os papeis, ou perde a promoção.
-Não moça, ele vai voltar, sim. Muito obrigada, até breve.

Esqueci que eu estava até tonta de tanta gripe antes do telefone tocar, rouca e tudo mais. Quando me dei conta já estava pulando no meio da sala, com o telefone na mão, procurando o número do lugar onde meu pai estava – a saber: nosso sítio, há mais de mil quilômetros de distância.

Óbvio que em dois dias ele já estava aqui de novo. Óbvio que deu tudo certo.

Meu pai e minha mãe, do alto de quase trinta anos de casados, viajaram pela primeira vez ao exterior. Para assistir um jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2010. Na África do Sul. Durante uma semana inteira. Com tudo pago – do carro que os levou ao aeroporto na ida, até a volta pra casa, passando pelo hotel, comida, passeios e uma semana de hospedagem por lá. A lua de mel que eles nunca tiveram.

Eu adoro essa história.
Mas sabe o mais curioso?
Assim que desliguei o telefone e contei pra minha mãe, que estava trabalhando, ela achou que fosse trote. Não me lembro da reação imediata do meu pai, mas me lembro que fui com ele ao shopping assinar os papeis e a moça, quando me reconheceu como a doida animada do telefone, disse assim:

-Você foi a única que acreditou de primeira no que eu falei. Todas as outras pessoas duvidaram, acharam que era pegadinha, trote. Só você acreditou logo de cara.

Esta sou eu. A pessoa que acredita nas outras pessoas. Fiquei com cara de “ué”, pensando que talvez me achassem até bobinha por comemorar algo assim sem ter certeza, mas eu sabia que era verdade. Ele tinha participado de uma promoção dias atrás, a pessoa ligou, se identificou e falou tudo isso, então eu acreditei. Podem até me achar ingênua, que seja. Não vou mudar minha crença assim tão fácil. Esta sou eu. A pessoa que acredita nas outras pessoas, com um toque suave de teimosia.

O mistério do chuveiro

Dias atrás, minha filha e eu tomamos banho juntas por volta das dez da noite. Nada errado com o fato de tomarmos banho juntas, porque fazemos isso há tempos, nem com o fato de ser tão tarde. Ok, talvez o horário estivesse um pouquinho fora do padrão, mas para uma família tão avessa a horários rígidos, até que não era assim tão estranho.

O mais estranho aconteceu depois.

Pouco tempo depois que saímos, era a vez do meu marido. Só que ele ligou o chuveiro e… nada. Esperou um pouquinho, mas a água simplesmente não esquentou. O sistema de aquecimento do nosso chuveiro é a gás, sempre que é ligado precisamos esperar um tanto a mais antes que a água quente chegue (o que me faz captar essa água fria muitas vezes, porque é muito desperdício), só que dessa vez não estava chegando. Testamos várias vezes, ligamos um pouquinho só, ligamos o registro todo, mas a água não esquentava de jeito nenhum. Como assim, gente? Eu tinha acabado de sair dali, nada fora do normal havia acontecido, tudo na casa parecia exatamente como sempre. Por que raios não estava esquentando agora? Não havia muito tempo para pensamentos ou suposições, era tarde e queríamos dormir. Ele esquentou água no fogão e tomou no velho esquema canequinha mesmo. Vida que segue.

No dia seguinte ele ligou para a empresa responsável pelo aquecimento, mas o técnico cobrava um valor razoável só para vir aqui em casa, sem contar alguma possível peça que precisasse trocar. Ou seja, não chamamos ninguém. A grande e dolorosa verdade é que não tínhamos 1 centavo a mais para nada, que dirá o valor que ele pedia. Cheguei a chamar o zelador do prédio para dar uma olhada, quem sabe ele não saberia o que fazer, afinal de contas. Cinco minutos depois de ficar olhando e olhando para o gerador, ele balançou a cabeça e confirmou o que eu suspeitava. Ele não sabia. Me deu um telefone para ligarmos, mas quando vimos que era o mesmo  do técnico anterior, ignoramos solenemente o pequeno pedaço de papel.

Fizemos, então, a única coisa que nos restou. Tomamos banho de canequinha pelos dias seguintes, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Cheguei a ficar muito feliz quando me dei conta da economia de água que estávamos fazendo. Em tempos de crise hídrica, me senti colaborando muito para o panorama geral da cidade. Tudo tem um lado bom, é o que sempre digo. E comecei a reparar que, além das represas que abastecem São Paulo, algo mais estava sendo beneficiado. Marido e eu tomamos banho juntos praticamente todos os dias desde então. Podia não ser o banho mais romântico das nossas vidas, nem nada digno de me fazer gastar palavras de descrição aqui, mas foram da maior importância, diria Gal. Ainda mais para nós, que ficamos com uma pequena pessoa o dia todo, imersos na rotina e nos afazeres externos por tanto tempo. É fácil esquecer de cuidar do outro. Ali, depois que ela dormia (de dia ou de noite), a gente se ajudava, conversava, ria. Minutos preciosos que nos foram devolvidos. Até tiveram dias de calor intenso que arriscamos um banho gelado, no chuveiro mesmo. Pra mim, que só enfrento água fria no mar ou na piscina, foi quase uma aventura dentro da minha casa, no meio da minha semana normal. Demais! Sem contar que ele conseguia fazer a água quentinha cair na minha nuca, devagar, do jeito que me relaxa tanto.

O plano era viver esse romance até o próximo pagamento, para enfim chamarmos o técnico. A vida real, ela não tem filtros, temos que viver com isso. E assim vivemos, até hoje.

Hoje acordamos atipicamente tarde, tomamos café da manhã na hora do almoço, almoçamos quase três, discutimos problemas e eu chorei – e já está tudo bem, diga-se de passagem, foi coisa rápida. Fomos até a casa dos meus pais para que eu pudesse lavar minhas madeixas lá, porque mais uma vez lavando na canequinha não daria certo. Eu precisava de um chuveiro quente. Até aí tudo bem, tudo normal. Voltamos, seguimos com nosso dia, tentamos arrumar formas de dominar o mundo, porque a coisa está difícil demais por essas bandas, moedísticamente falando. Difícil nível o gps do carro falando “você está fora da rota, retorne assim que for possível, você está fora da rota”. Dia de vencimento de conta grande sempre me faz querer mudar um monte de coisas. Questões e mais questões. Como não dava para salvar minha conta bancária o planeta em uma tarde, sentei no chão da sala e brinquei com a minha filha. Depois, deixei que ela se lambuzasse com abacate enquanto eu ajeitava a cozinha. Como a lambança foi grande, era preciso tomar banho. Coloquei a água para esquentar e, pouco depois, liguei o chuveiro para ir enchendo o balde com água fria. Saí do banheiro um minuto e, quando voltei para desligar o bendito, aconteceu. Minhas mãos tocaram numa água morna-quase-quente. Tinha até um princípio de fumaça acolhedora no banheiro. E eu saí gritando de felicidade e fazendo dancinhas da vitória por todo apartamento.

-Amor!! A água tá quente, a água tá quente!!! Uhuuu!!
-Eu sei, acabei de…
-Vem ver, amor, vem sentir a água quente!
-Vi aqui no gerador… (e parou a frase no meio, porque o puxei pela mão até o banheiro)
-Não, meu bem, não basta saber só com a cabeça, você precisa sentir com as mãos, literalmente, essa maravilha que acabou de acontecer nessa casa! – disse uma eu muito animada e pulante.

Fiz festa, vibrei, dancei, liguei pra minha mãe e quase anunciei no rádio. Foi como um sinal divino. Eu não sei explicar. Ver o chuveiro funcionando de novo, do mais completo nada, sem traumas ou revoluções, depois de tantos dias, ainda mais hoje, o dia em que pensamos e falamos tanto sobre o nosso tudo. Foi mágico! Tem solução! Nossa vida, minhas neuras, suas dúvidas. Tem solução! Talvez não tenhamos mesmo que chamar gente de fora para dar um jeito nisso. Talvez seja só seguir a vida com algum romance inventado, enfrentar uma ou duas vezes a água fria nas costas, algum trabalho mais braçal que traga resultado. E um dia a água ficará quente de novo, como estava antes. Já não interessa o motivo dela ter esfriado de uma hora para outra e ter se recusado a esquentar pelos dez dias seguintes. Ela voltou, meu bem. Ela voltou!

Sei que foi um episódio bem estranho, que não faz sentido, que é até difícil de contar. Eu sei. Mas também sei que combina perfeitamente conosco, que tomamos banho depois da dez, almoçamos quase três e gostamos tanto de inventar nossos próprios padrões e cultivar pequenos milagres. O chuveiro só confirmou que estamos no caminho, dane-se o gps – e quem sou eu para discordar.

Carta do dia: desculpa

Filha, me desculpa.

Quando estou triste, ou num ciclo de pensamentos negativos, acabo sempre caindo no clichê de pensar que é por você que eu vou melhorar. Que você me ajuda a seguir em frente, mesmo com percalços e desvios. Desculpa. Quero deixar registrado que não faço isso por mal. Que eu nem mesmo chego a verbalizar ou dar ênfase a esses pensamentos, porque sei que estão equivocados. Eu preciso mudar – o que quer que seja – por mim.

Entendo que falar isso pode soar bonitinho para muita gente, mas não pra mim. Porque veja bem, não é justo que eu me apoie em você. Eu tenho 1,67cm e você apenas 78cm. Está crescendo mais a cada dia, a olhos vistos e com muita saúde, eu sei, mas ainda sim é muito desleal. Eu não quero ser um peso pra você.

Você é uma pessoa livre para viver a história que quiser e puder viver. No tempo certo fará suas escolhas e seguirá o seu caminho. Ter a mim como ~uma coisa a ser segurada~ pode atrapalhar e minar muitas experiências na sua vida. É claro que não vivemos sozinhas nesse mundo, um ajuda o outro, que ajuda o outro e assim vamos, numa rede muito bonita de troca e aprendizagem contínua. De mãos dadas podemos abraçar muito mais. Porém, cada pessoa tem suas próprias sombras, crises e questões a serem resolvidas. Podemos nos ajudar? Claro, com certeza. Mas ajudar não é resolver pro outro. Você não vai resolver nenhum problema meu, meu bem, fique tranquila – já terá os seus para dar conta, acredite. Quando transferimos para o outro a força necessária para resolver uma coisa que é só nossa, estamos nos esquivando de viver nossa própria história.

Sem contar que você é apenas um bebê. Se eu projetasse em você minhas esperanças seria ainda mais cruel. Porque você não tem capacidade, por enquanto, de opinar sobre isso. Ainda não pode dizer se concorda ou não, o que pensa sobre o assunto e o que faria no meu lugar. Essa é uma conversa que teremos no futuro, com certeza. Mas fique tranquila aqui também, pois o papo será apenas isso mesmo: bate papo entre mãe e filha sobre coisas da vida.

O que quer que eu tenha para resolver, tenho que fazer por mim. O que quer que tenha para resolver, faça por você. Nossas relações com as outras pessoas serão muito mais plenas e livres quando não estiverem rodeadas de expectativas que não fazem o menor sentido. Expectativas nunca fazem sentido, eis aqui uma verdade.

Leve

Demorou quase um ano inteiro, mas finalmente aconteceu.
Estou sentindo a leveza que eu quis buscar lá trás, ainda no ano passado, quando decidi que esta seria a palavra do meu ano.

Não. Ainda não está tudo cem por cento bem.
Não. Ainda não deu tudo super certo.

Foi dentro que mudou.

Foi o meu olhar para a minha história.
Foi a minha relação com meu companheiro.
Foi a minha entrega à minha filha.
Foi o tempo que separei pra mim.
Foi o fato de ter voltado a praticar mais a minha fé.

O que me tornou leve foi a decisão de não mais carregar aquilo que não é meu.

Eu não sei dizer o dia exato que isso aconteceu, foi há pouco.
Tanto que ainda nem quero sair espalhando por aí. Mas está acontecendo.
E só quero sentir. Pouco a pouco estou sendo preenchida por uma sensação muito boa, que me dá força e tranquilidade, ao mesmo tempo. Agora só resta descobrir como faz para não deixar que ela vá embora de vez, que não me escape e fuja, mas isso não é o assunto do momento. Agora eu estou leve. Deixe-me levar esse momento comigo por onde eu for.

Faz tempo que eu esperava, que bom que finalmente chegou.

Descanso

Talvez eu tenha entendido tudo errado.

Aquela vez na escola, você só foi embora sem dar tchau porque não saberia lidar com o meu choro.
Foi por não saber lidar com ele que fui passar as tardes longe de você, na verdade. Não dava mais para me deixar dentro de casa, sofrendo por algo que ninguém sabia explicar o porquê. Uma pessoa sofrendo já era suficiente. Por me amar, fez o que achou melhor naquele momento.

Cada um faz o melhor que pode com aquilo que tem.

Mesmo eu insistindo que ali não era o meu lugar. Mesmo o meu pânico crescendo a cada dia e tendo que ser armazenado de um jeito torto dentro de mim. Eu não podia expô-lo, afinal de contas. Todas as vezes que tentei não deram certo. Na ânsia de fazer o melhor, podemos acabar machucando exatamente quem mais queremos proteger. Eu só queria me sentir protegida, você também? Como sentir proteção num ambiente estranho?

Durante muitos anos fui minha própria proteção. Ninguém ouvia o que eu falava. Não entendiam minha linguagem. Era como se fossemos estrangeiros dentro da mesma casa. Um bocado de bocas, se abrindo e fechando sem ninguém pra dublar, como já cantou Arnaldo naquela música que a gente adora. Acho que entendo porque gostamos tanto dessa canção. Era certo que eu nunca quis manipular ninguém. Eu não era uma menina má. Eu só não sabia que, antes de mim, também houve muito abandono nesse mundo. Não só das crianças que eu via nas ruas. Um outro tipo de abandono. Emocional.

Cada um dá aquilo que tem.

Como eu não pensei nisso antes? Naquela época, o mundo ainda era um lugar menor, não cheguei a cogitar essa possibilidade. Chegar à vida adulta ainda era um mistério, não dava pra saber que tipo de desafios ainda viriam pela frente. Ninguém nunca me disse, tampouco arrumaram outras formas de me fazer entender. E ficamos assim, cada um com seus fantasmas. No meio desse tanto de ruído, fui procurando um lugar que eu pudesse me instalar.

A verdade? Tudo isso nunca foi sobre mim.
Eu não tinha culpa de nada.
Eram apenas outras almas abandonadas tentando lidar com aquele tanto de vazio e culpa que não faziam o menor sentido dentro de si mesmos. Tentando fazer diferente para, quem sabe assim, acertar alguma coisa nessa vida. Exatamente como eu – agora eu vejo – e chego a sentir uma espécie de vergonha, confesso.

A música parou. Talvez eu é que tenha parado de dançar primeiro. Cansei.

O caminho que fiz até aqui foi puxado. Talvez eu me deite um pouco para descansar, hoje é domingo, me parece um bom dia para descansar. Mais de duas décadas e meia carregando uma verdade muito estranha que nunca me pertenceu. Esmiuçando cada pequeno detalhe e entrelinha, tentando entender em que momento cometi o erro que me desviou de tudo que sempre quis mostrar e nunca consegui. Tentando, até hoje, dizer de novo e mais uma vez aquilo que aos 2 não entenderam.

Vou deixar aqui do lado o que é meu sobre toda essa história. Enquanto descanso um pouquinho, depois torno a seguir com essa bagagem. Apenas o que me cabe, nada mais. Daqui em diante vou usar as linhas desse nosso bordado para outro desenho, espero que não se importe. Você decide o que fazer com o seu. Faz tempo que tento dizer que seria bom lidar com isso tudo que tem aí dentro, que você insiste em esconder. Fugir não resolve, só causa dor nas pernas – e também alguns acidentes a terceiros, a depender da pressa com que se vai. Mas eu disse que ia parar, não é? Ok, parei. Foi o vício de linguagem, já percebi. Deve ser o cansaço. Mais tarde podemos conversar mais, com aquele café que sempre tomamos cinco e meia da tarde. Quem sabe eu não me anime a começar meus escritos e te conte algo mais sobre os planos para os próximos meses.

Se cada coisa que possa ter entendido errado nessa vida me trouxe até este momento, então não lamento. Pensei que só nos afastaríamos, mas não foi assim. Existe uma ponte, feita de cada passo que demos até aqui que nos liga a cada dia. O espaço entre a gente é só para garantir que tenhamos ar. Talvez tenhamos conseguido entender alguma coisa, afinal. Talvez um dia eu tenha coragem de enfrentar a solidão da escola novamente. Mas só vou pensar nisso amanhã, quando estiver descansada.