Perspectiva

Eu escrevo porque é um jeito de colocar a vida em perspectiva.

Há quem diga que viver assim, querendo enxergar todas as nuances, é exagero. Não sei, talvez seja mesmo uma questão de ponto de vista, porque pra mim exagero é viver acatando tudo o que acontece como normal, mesmo aquilo que incomoda. Nós vivemos em uma sociedade que nos incentiva o tempo todo a cultivar o que vem de fora. Aparência física, status, números nas redes sociais, opiniões e mais todos aqueles exemplos que já são quase clichês, de tão falados.

E o que vem de dentro, por que não damos tanta importância?
Claro, há que se ter medidas, porque tudo em excesso não funciona. Olhar só para dentro pode acabar se tornando egoísmo, a depender de quando – e quanto – praticamos. Mas não é disso que estou falando. Estou falando de olhar. De acolhimento. De ser gentil com quem somos e de entender que existe um mundo inteiro dentro de nós, pronto para nos mostrar que existem muitas possibilidades, chances e razões. De seguir em frente, de mudar de rota, de voltar um pouquinho, de parar para respirar. De ser.
Apesar de acreditar em cada palavra que acabei de escrever, sei que é difícil colocar em prática e romper com todo um sistema e estrutura que sustenta essa sociedade tal qual conhecemos hoje. Sei porque vivo muitos conflitos em relação a isso. Nem sempre é fácil seguir o que o meu instinto sussurra. Não é automático. Dá trabalho pra caramba. É uma desconstrução contínua e sim, muitas vezes me canso. Mas persisto. Mesmo que em alguns dias eu queira apenas dormir, ou voltar o jogo e começar tudo de novo. Ainda há muitas barreiras para romper, não posso desistir agora.

Nesses momentos, quando tudo parece mais difícil, eu preciso escrever.
Quando vou organizando uma palavra depois da outra, tendo a chance de apagar e escrever outra vez, de escolher com calma a palavra certa, ou até mesmo despejar tudo num gole só, sinto que dentro de mim acontece exatamente a mesma coisa. É um exercício que me traz consciência, alguma clareza e muito bem estar. É o que eu faço quando não sei o que fazer – como agora, por exemplo. Daí então eu tenho ideias, sinto bons sentimentos, acalmo algum desassossego que porventura insista em ficar. Não tem como achar que isso seja exagero, que faça mal querer ver tudo assim.
Se isso me toma muito tempo? Sim, bastante. O tempo que eu gastaria para ficar mostrando por aí coisas que nem me pertencem de fato. Talvez por isso cause tanto estranhamento. Ou não. O mundo é uma perspectiva. Qual é a sua?

Fotografia

Ela estava muito brava.
Me mordia, dava uns gritos, chorava. Estava visivelmente chateada e irritada.
Nós estávamos vendo algo no computador, provavelmente o capítulo do dia da novela das seis, que gostamos muito.
Diante da revolta da pequena integrante da família, demos pause no vídeo e eu me sentei no chão, ficando na sua altura. Ela continuou chorando, me olhou, viu que eu estava disponível e veio até mim. Mamou bastante e conseguiu se acalmar. Depois de alguns minutos assim, com ela ainda mamando, continuamos de onde paramos. Eu ali sentada no chão ainda. Terminou o capítulo, ela saiu do meu colo, deitou a cabeça na almofada que estava no chão e ficou. O pai, vendo a cena inusitada, deitou ao seu lado e fez um carinho. Os dois se olhando. Eu olhando os dois. Silêncio na casa. Eles ficaram assim por um tempo infinito. Achei que ela fosse dormir. Achei que éramos uma fotografia num álbum de família.
Ele disse coisas lindas pra ela. Ela ouviu tudo, estava atenta a tudo que ele dizia, com a tranquilidade de quem vive aquilo que muito se esperou. Ele ia falando baixinho, fazendo carinho em sua cabeça e eu apenas olhando, feliz por presenciar uma cena assim. Por testemunhar essa construção deles dois. E da nossa família. Acho que a nossa missão é ser família, cheguei a dizer em algum momento. Chorei. Pequenas e silenciosas lágrimas que não conseguiram se conter e transbordaram.
Ela se levantou e pegou o livro preferido, o único que tem paciência de ouvir e que pede ao pai para ler todos os dias, várias vezes. Ele leu. Ela sorriu. Me levantei e deixei os dois ali no tapete. Ela veio, trouxe o livro até mim e depois voltou para onde estavam. Era um pedido para eu me juntar a eles. Deitei ao lado dele, ela ficou entre nós e ele leu mais uma vez. Sorrimos. Toda irritação havia se dissipado. Entre livros, brinquedos e almofadas, embolados no chão da sala numa noite de quinta-feira, éramos uma fotografia que ninguém tirou. Mas que eu nunca vou me esquecer.

pequeno ajuste 

Incrível como as coisas podem, de fato, ser mais leves.

Ainda ontem eu cheguei a falar que talvez estivesse alerta demais, querendo pegar no ar as respostas certas para já colocar tudo em prática e fazer dar certo e produzir e arrasar e ser feliz e… e…

Tanta coisa que não estava nem respirando. Todo mundo sabe que sem respiração não existe vida. Então porque insistimos em correr tanto? Por que não dar o tempo necessário para as coisas apenas acontecerem? Sim, é preciso fazer a nossa parte, todo dia. Mas nem tudo está sob o nosso controle. E ainda bem, porque olha, ia ser um peso realmente muito ruim de carregar.

Hoje, por algum milagre, não acordei com a cabeça a mil. Coincidência ou não, uma amiga veio me visitar logo de manhã, foi um bom começo. No decorrer do dia fui apenas vivendo com calma, uma coisa por vez. E não conversei muito sobre problemas, muito menos sobre soluções. Entreguei o que não me cabe e acreditei que na hora exata vai acontecer da resposta chegar. Dai então só restou me sentir bem por estar onde estou, já que é fruto de escolhas tão sonhadas no passado. Estou realizando e isso tem um valor enorme pra mim, não vou desperdiçar esse momento. Pode não estar ajustado ainda, com falhas, mas é um momento real. Sobre o amanhã, deixe que ele mesmo responda. Eu escolhi, hoje, apenas sentir e agradecer. 

Sobre o tempo e seus milagres

“Recém nascido é muito bom! Muito gostosa essa fase, que saudade”
A frase acima foi proferida por mim e pelo meu marido exatamente hoje de manhã, enquanto conversávamos com uma amiga que está grávida.
Fiquei tão atônita quando caiu minha ficha pelo que tinha dito que tive que vir aqui escrever. Contar que o tempo opera milagres, se soubermos esperar. E se não soubermos também, porque não podemos fazer nada em relação a isso, só mesmo aguardar que ele chegue e faça o seu trabalho.
Por que estou falando isso?

Pelo simples motivo de que o meu pós parto foi pesado. Meus ombros doíam, literalmente. Eu achava que era por dormir mal ou posições erradas na hora de amamentar, mas na verdade era o peso que eu insistia em carregar que me doía o corpo todo. A Agnes era mesmo uma delicinha de bebê, claro. Mas o peso do turbilhão de hormônios e sentimentos que tomaram conta de mim me fizeram achar, na época, que aquilo não estava sendo tão legal. Que bem podia ser de outro jeito, que algo estava fora do lugar. Sim, estava mesmo fora do lugar. Não dá pra parir um bebê e sair imune disso. Nem só do parto estou falando, mas do todo. É novidade em todos os níveis possíveis. Tem gente que passa por isso de forma mais leve e serena. Pra mim foi intenso. E de tão intenso cheguei a achar que estava ruim. E cheguei a achar que por mais que o tempo passasse, eu ainda me lembraria do incômodo que sentia.
Aí sim, fomos surpreendidos novamente.
Agora é a hora que eu digo, tão espantada quanto poderia estar, que aconteceu. Eu não me lembro mais exatamente das chatices que senti no puerpério. Não de imediato. Eu sei que foi tenso, que foi custoso, que precisei lidar com uma catarse doida que eu achei que fosse me acompanhar até daqui umas duas vidas. Mas passou. Oi? Alguém me belisca pra eu ter certeza? PASSOU!!! A ficha caiu completamente hoje, nessa conversa com minha amiga. Marido e eu falando que era uma fase gostosa, que era muito bom etc e tal. Aura de nostalgia no ar. Só lembrança boa.
Como boa amiga que sou, não romantizei tudo. Falei que é intenso, sim, que o primeiro mês é o mais punk, de adaptação de todo mundo, só que também tem sua beleza e sua alegria.
Estaria mentindo se dissesse que já esperava por isso. Como disse, meio que me acostumei a sentir aquilo, a viver assim. Depois que o puerpério passou ficou tudo mais suave, claro. Só não pensei que chegaria o dia em que eu só me lembraria da parte boa. Do cheirinho de rn, de como é gostoso aquele pacotinho no colo, dos barulhinhos, de ficar com ela no colo o dia todo, de boas no sofá, amamentando de um lado e comendo do outro. Era muito legal, gente!

Mesmo estando aqui hoje, com essa sensação boa, não me arrependo de como foi, não sou dessas. Senti tudo que me cabia, tudo que veio, o combo completo. Agora estamos em outra fase, que também abraço inteira. E assim será sempre, se depender de mim.
Contudo, não deixo de agradecer ao Sr. Tempo, de novo e sempre, por me ensinar que ele sempre está a nosso favor e sempre fará o seu trabalho. Só é preciso lembrar que ele só trabalha em silêncio, e não na nossa pressa. Ele está sempre no horário. Ainda bem.

Quintal

Meu sonho de consumo dos últimos dias tem sido um quintal.

Um quintal para minha menina brincar, explorar, descobrir, inventar. Um quintal para eu estender minhas roupas no sol. Um quintal para fazermos farra, todos juntos. Reunir a família. Montar uma piscina inflável. Construir cabaninhas. Plantar um pé de romã, como o que eu tinha no meu quintal de infância. Ah, o meu quintal, tão querido. Tinha grama, tinha roseiras, pé de acerola, pé de romã, capim-santo, hortelã. Ele era na lateral da casa, uma delícia. Lá atrás tinha uma área coberta, muito boa também, que se juntava ao quintal. Ia até lá frente, na garagem. Eu tinha um mundo inteiro de possibilidades.

Hoje eu moro num apartamento minúsculo, num condomínio que não oferece quase nada de lazer para crianças. Estou considerando a piscina e um único escorregador como algum entretenimento, mas claro que achamos muito pouco para dar conta da energia de todas as crianças daqui. Estou no oitavo andar e ouço claramente todas elas correndo lá embaixo, brincando muito nessa noite fresca de quase primavera. Acho legal dizer que acredito piamente que criança não precisa mesmo de brinquedo pronto para brincar. É melhor quando inventam e mergulham tão fundo na imaginação que não querem saber de entrar pra casa. Mas o espaço físico lá em baixo é pequeno. É disputado com outras pessoas, é muito menor do que o estacionamento. É só um corredor, digamos assim. Lá no estacionamento tem umas pedrinhas que minha filha de 1 ano adora pegar para brincar. Posso deixar ela brincar no estacionamento? Claro que não. Acaba sendo tudo muito rápido, tudo muito limitante, muitas regras e limites rígidos para, só então, poder brincar. É quase triste isso.

Um quintal também tem sua limitação, eu sei. Mas tem seu infinito na mesma medida ou até mais, ô se tem.
Quintal é quase um estilo de vida. É domingo de sol, é tarde de terça, é manhã de sábado. É onde eu posso fazer minhas coisas enquanto ela brinca solta, sem que eu tenha que podar sua liberdade, sem que eu tenha que vigiar o tempo todo as tomadas, a altura do sofá, a porta do banheiro. Sem que ela fique hipnotizada por telas tão desnecessárias à sua idade. É onde eu posso me juntar a ela nas brincadeiras, e até ensinar algumas, se for o caso. Dar uma bexiga com água na sua mão numa tarde de calor, por exemplo, é coisa que só fazemos no quintal.

Quintal é naturalidade. É poder pisar na grama (essencial que meu quintal tenha grama, adoro), se refrescar, tomar sol, banho de chuva. Sem o planejamento e a logística que são necessárias nos únicos locais dos grandes centros em que isso tudo é possível: parques e praças. Tô dizendo, quintal é vida.

Minha próxima meta é conseguir uma casinha com quintal. Pode ser pequena, simples, não me importo com nada disso. Só preciso dessa sensação de fluidez e liberdade nesse mundo que já é tão concreto. E tem coisas na vida que só um bom quintal pode proporcionar.