Quem tem medo de tristeza?

Tem vezes que eu me sinto um tantinho triste. Uma coisa assim meio sem sentido, um sentimento que aparece para me fazer uma visita geralmente logo cedo, porque deve saber que eu sou mais desatenta quando acordo. Não é nada atrelado a preocupações, medos ou receios por quaisquer motivos. Sendo mais literal, não é um problema – daqueles que temos mesmo que resolver. Até porque, como acabei de dizer, problema a gente resolve, não dá para perder muito tempo com lamentações. Podemos dizer que é algo mais parecido com melancolia. É sentimento. Inclusive, melancolia está como sinônimo de tristeza no dicionário. Nesses dias, não dá para dizer o porque dessa tristeza. É tristeza e fim.

O que eu faço a respeito disso? Vivo. Sinto. Quase pego a tristeza no colo, para dizer a verdade. Deixo que ela me abrace, assim como no filme Divertida Mente, quando a Tristeza abraça o elefante, o amigo imaginário. Uma das cenas do filme que eu mais gosto.

Se isso é loucura? Sei não. Mas, quando um sentimento está assim tão presente em mim – seja ele qual for – eu preciso vivê-lo. Sou intensa mesmo. Às vezes, eu tenho dias de alegria e felicidade, mesmo que eu não aparente motivos reais e concretos para tal. Eu simplesmente vivo a felicidade. E, veja só que coisa, isso também se dá com os sentimentos ditos ruins.

O fato de eu concentrar minhas atividades em casa facilita um pouco a coisa de deixar a tristeza ficar. Porque muitas vezes me parece que as pessoas têm algum tipo de medo desse sentimento. É você falar que está triste, ou simplesmente não estampar um sorriso de orelha a orelha o dia inteiro que já vêm te perguntar o que aconteceu, quais seus motivos, dizer para não ficar assim. Querem eliminar a tristeza da nossa vida a todo custo. Agendas cada vez mais cheias de compromissos, o tempo cada vez mais escasso para olhar para dentro, remedinhos “inocentes” para ir levando a vida, sem prestar muita atenção aos sinais, são só alguns exemplos disso.

Não estou pregando aqui que todos andem chorando pelas ruas, mas fico me perguntando: essa insistência toda das pessoas em só mostrar felicidade, mesmo que seja só por fora, não seria uma fuga dos próprios sentimentos? Claro que quando vemos uma pessoa triste, queremos ajudar de alguma forma, até porque pode ser um desdobramento de um problema sério, mas será que o fato de não admitirmos nunca a possibilidade de somente deixar o sentimento ficar e mostrar apoio, não seria medo de olhar para nós mesmos? Ver a tristeza alheia e aceitá-la é admitir que você também a sente. Num mundo onde prevalece a lei do mais forte, a tristeza muitas vezes é encarada como fraqueza. E ninguém quer se mostrar frágil, nem para si mesmo. Ignoramos a tristeza.

Eu não tenho medo dos meus sentimentos. Mas confesso que já tive. Claro que é normal não querer sentir coisas que nos trazem sensações desagradáveis. Também já tentei lidar com isso de várias outras formas: fugindo, fingindo que não era comigo, tentando colocar outros sentimentos em cima do que já estava ali, chorando, me desesperando. Nada funcionou. Simplesmente porque, quando eu parava com as táticas, o dito cujo ainda estava ali, do mesmo jeito, olhando pra mim como se nada tivesse acontecido. E o ciclo se repetia. Descobri, na prática, que é isso que acontece quando você não quer encarar uma situação ou um sentimento: ele permanece. Algumas vezes cresce.

Um dia, cansada da guerra que tinha se formado dentro de mim, com tanta fuga e tanto ataque, eu me rendi. Levantei a bandeirinha branca e tudo. Deixei a tristeza ficar. Segui a vida naquele dia num ritmo mais lento, estava observando de perto o sentimento que era tão presente, mas que eu conhecia tão pouco. O que ela provocava em mim, de verdade. Se costumava dar às caras depois de alguma situação específica, ou se vinha de acordo com a fase da lua. Conversei com a tristeza, olhei bem pra ela, a fim de reconhecer seus traços e gestos. Foi um dia de autoanálise, tenho o hábito recorrente de fazer isso. Sabe o que aconteceu? No dia seguinte ela não estava mais aqui, foi embora sem deixar bilhete. Então descobri mais uma coisa: para lidar com algum sentimento inoportuno, mostrar para ele que não, não é uma boa hora para uma longa estadia na sua casa, você precisa olhá-lo nos olhos, precisa mostrar que pode viver tão bem sem ele, que até pode deixá-lo ficar por uma hora ou um dia. Você precisa, antes de tudo, se conhecer. Porque se o sentimento veio, algum motivo há de ter. Mesmo que não seja óbvio, mesmo que você não saiba a resposta de imediato. Mas existe. Ver a cara da tristeza é ter a oportunidade de entender e, consequentemente, resolver o que incomoda, o que faz mal. Mesmo que você chore, mesmo doa encarar o quer que seja. Mas passa. Sempre haverá o dia seguinte. E o outro, e o outro. Sempre haverá os amigos e os amores, para te ajudar a passar por isso. Isso é somente o processo, o caminho até uma vida mais consciente.

Como diz Hélio Leites: “tudo não é o fim da picada, entende? A tristeza num certo ponto, até que ela é boa. Ela faz você ver outras coisas que a alegria não deixa ver”. E essas coisas que você vê, além do exercício de autoconhecimento, podem ser usadas para produzir. Transformar tristeza em poesia é uma coisa que poucas pessoas conseguem, porque poucas pessoas tentam.

Fico feliz em revelar: depois que passei a aceitar a minha tristeza, ela me visita cada vez menos. Fica comigo por menos tempo, quando resolve aparecer. Eu não a chamo, mas também não fujo. Hoje eu sei que quando ela vem é porque eu preciso enxergar alguma coisa, é que eu preciso parar e apenas observar e sentir o que se passa dentro de mim. Geralmente eu descubro coisas bem legais a meu respeito, reafirmo outras tantas. Então ela se vai. Deixa o aprendizado e ainda algum material para que eu transforme em palavra. Agora me diz: como temer isso? Como querer que ela não venha nunca?

Quando a tristeza aparecer, seja mais calmo e paciente com ela. Entender que o que você sente hoje é pura e simplesmente o que você sente hoje, e não uma resposta definitiva de como será sua vida daqui por diante, pode ser libertador. Parar de lutar contra um sentimento pode abrir um espaço lindo, amplo e arejado na sua vida, muito propício para enxergar e perceber tudo que ele quer te ensinar. Pense nisso.

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25 de agosto de 2015

Tinha tudo para ser um dia normal.
Acordamos oito e vinte e quatro da manhã. Fui ao banheiro, a pequena acordou e nem reclamou minha ausência, como geralmente faz. Ficou junto do pai. Fiz café, coloquei o pão para assar, ajeitei outras coisas. Tomamos café da manhã juntos, como todos os dias. Ele tinha que ir trabalhar. Fiquei em dúvida se ia junto ou não, resolvi ficar por aqui durante a manhã para adiantar o almoço. Depois sairíamos juntos para resolver algumas coisas.

Mas a tarde não chegou.
Ainda antes do almoço, eu em casa com a pequena, o interfone toca para me trazer uma notícia inesperadamente dolorosa. O pai do meu marido nos deixou. Minha prima (que também é nora dele) veio me contar, em meio a um abraço, e minhas pernas bambearam. Não acreditei. Foi hoje de manhã, em casa, fulminante. Não deu tempo de socorrer. Ele se foi para sempre.

Os acontecimentos que se seguiram foram intensos e, ora automáticos, ora instintivos.
Marido pegou pra si a responsabilidade de resolver todas as pendências burocráticas, uma fortaleza. Ou melhor, tentando construir uma fortaleza ao redor de sua fragilidade. Só ele sabe a dor que sente. Ficamos todos reunidos durante a tarde, enquanto a papelada rolava. Estivemos junto da esposa e da filha de 10 anos, tão pequena e tão forte.

E mesmo agora, dia seguinte, já tendo acontecido toda a despedida – bonita e dolorosa despedida – ainda custo a acreditar. Ele estava bem de saúde, não tomava nenhum remédio, não tinha pressão alta, nada. Estava indo ao dentista, se preparando para se despedir da filha e do neto, além da esposa, quando se sentiu mal. Foi súbito. Sem aviso. Sem dicas. Um susto que ainda não passou. A gente fica pensando em quem ele foi, nas coisas que disse, que fez, nos nossos últimos encontros. Tudo ganhou uma nova lente agora. Ganhou um outro sentido.

O entendimento diante dos mistérios da vida beiram a zero. Mesmo assim, queremos racionalizar, pensar, explicar. Tentar ter algum controle ou explicação que seja de algo que nos foge completamente. É tudo muito maior do que um dia pudemos supor. Um nível de sentido e de tempo que ainda não alcançamos. Apenas nos curvamos diante deles.

A fé é nossa fortaleza. Somente com ela conseguimos seguir em frente e dar um passo trêmulo depois do outro. Mas iremos. Juntos, toda família, a mesma que ele amava tanto. Porque mesmo não entendendo nada sobre coisa alguma, juntos somos mais fortes. Abraçados, acolhidos, amparados, E no fim, é´isso que importa.

A ideia de quando eu tinha 7 anos

Já escrevi um livro. Eu tinha por volta de uns 7 ou 8 anos.
Era sobre o filho do Coelho da Páscoa, que ajudava o pai que estava doente e não podia entregar todos os ovos.
Escrevi, ilustrei, fiz capa e tudo como manda o figurino.

Desde então eu sonho em escrever outro livro. Outros. Só escrever mesmo, porque não tenho dotes para o desenho, ficou claro lá atrás. Mas o desejo de escrever, contar histórias, organizar letrinhas, ver minhas palavras no papel é coisa que eu guardo em mim desde então.

O fato é que eu sou péssima para mentiras. Péssima para inventar coisas do nada, sem mais nem menos. Some a isso também um outro fato: eu ficava imaginando como seria narrar algumas coisas da minha vida no papel. Porque uma criança pensava isso nunca saberemos, mas de qualquer forma, esta sou eu. Começou aí, talvez, o meu registro em diários.

Eu uso a minha vida como pano de fundo na maioria das coisas que escrevo. Só que nunca publiquei um livro, mal mostro meus registros para outras pessoas. Tenho dois blogs, e muita coisa além deles também. Depois de um tempo, comecei a pensar que não dava para ficar nesse limbo do ego em tempo integral, que eu precisava vencer essa barreira, mas sem partir para o mundo fantástico que eu não domino nada bem. Passado um tempo matutando, cheguei a conclusão de que vou escrever sobre outras pessoas reais. Claro! Demorou para cair essa ficha, que nem é nova, muito menos revolucionária, mas a hora chegou e estou pronta para colocar um projeto antigo em prática. Ainda não vou mencionar detalhes, quando tudo se iniciar eu conto, mas de qualquer forma, é bom estar aqui, nesse ponto do caminho em que eu finalmente vou começar a colocar em prática a ideia que eu tive aos 7 anos de idade.

a única coisa que eu sei fazer

Eu nunca fui a pessoa mais extrovertida da turma. Não sei contar piadas, nem gosto que as atenções se concentrem somente em mim durante muito tempo. Danço mal, apesar de gostar bastante de fazer isso. Canto pior ainda. Não tenho habilidades com design, de nenhum tipo. Nem com softwares e/ou hardwares. Não sei vender nada. Tenho vontade de abraçar os clientes que reclamam dos altos preços do mercado. Não posso ver sangue. Não posso ter contato visual, auditivo e muito menos sensorial com injeções e afins. Não tenho paciência para fazer média com ninguém. Não me dou muito bem com números, fórmulas ou qualquer coisa de mais exato. Não entendo de planetas. Nem de ciência. Passo longe de remédios. Terapia em grupo não é uma opção pra mim. Também não sou muito boa com rotinas inflexíveis. Detesto fazer exatamente a mesma coisa, todo dia. Não sei cozinhar, apesar de me arriscar de vez em quando. Não sei tocar instrumentos musicais, mas adoro ouvi-los. Prédios altos, saltos altos, egos altos também não me apetecem. Sobra pouca coisa. Me aventuro em algumas delas vez ou outra, como fotografar, ver filmes  e tentar entender algo de cinema, literatura – um grande amor. Mas mesmo que indiretamente, dando algumas voltas, me vejo sempre às voltas com a palavra escrita, não importa para onde eu olhe.

Eu escrevo porque é a única coisa que eu sei fazer.

Combinar palavras para transmitir o que eu sinto é a minha melhor forma de expressão. Melhor do que falando, aliás, bem melhor. Dedos e olhos sempre foram os meus maiores aliados. Junto com alguma obervação e silêncio formam meu time imbatível para qualquer trabalho. Escrevo para pensar melhor. Para organizar as ideias. Para mudar de ideia. Escrevo quando quero dar um conselho a um amigo. Escrevo quando não quero falar com ninguém. Para exorcizar. Vibrar. Homenagear. Ou quando quero me desculpar. Escrevo porque as palavras sempre sabem o que dizer, eu só obedeço. Eu as ouço. Várias vezes. Interpreto, mais um monte. E só então passo adiante. Escrevo quando chove lá fora ou quando chove aqui dentro. E também para fazer ou parar de chover. Florescer. Renascer. Escrevo para tentar capturar o tempo enquanto ele passa por mim, distraído. E para libertar – pessoas e sentimentos. Escrevendo eu consigo ir lá longe, mesmo que não tenha me levantado a tarde inteira. E também escrevo quando não estou aqui. Andando na rua, dentro do ônibus, tomando um café, conversando com você. Escrevo primeiro dentro da cabeça, é assim que começa. As palavras vão surgindo e se unindo feito roupa estendida no varal, uma a uma. Eu as estico direitinho, descanso na sombra que elas me dão lá no quintal e depois é só recolher e usar cada uma no momento mais oportuno. Escrevendo eu me visto. Escondo ou revelo. Dependendo de como está o dia ou do meu estado de espírito, sei se preciso usar muitas palavras, ou algumas poucas. Às vezes eu não sei nem por onde começar e acho que nenhuma me serve – e estes são os piores, dá vontade de ficar na cama o dia todo, mas não é me escondendo que vai passar. Escrevendo eu me vejo. Eu me viro. Também me ouço melhor. Escrevendo eu me invento. Aprendi aos quatro anos e desde então sigo escrevendo. Se faço bem ou mal, não sei. Sei que escrevo porque gosto. Não imagino sendo diferente. E é a única coisa que eu sei fazer.

texto escrito 19/09/2013.

aonde os olhos pousam

Parque 017Pra mim, sempre pareceu que as ruas eram grandes e largas. Que os passos que eu dava até a casa das minhas amigas eram muitos e que dar a volta de bicicleta no quarteirão era um feito e tanto. Anos depois, voltando àquele lugar, percebi que era tudo pequeno, estreito, quase como se eu morasse numa cidade de brinquedo, numa casa de brinquedo. Me senti estranha. Eu não cabia mais ali. Hoje eu vivo numa cidade enorme, cheia de ruas e becos e avenidas e carros e gente. Mais carro que gente. Não dá pra ir a pé pra casa das minhas amigas e eu nem tenho mais bicicleta, apesar de sentir muita falta. É tanta gente que eu me sinto sozinha. A cidade é complexa e eu não a enxergo mais tão grande quanto antes. É quase pequena, mas nunca será de brinquedo. Talvez eu enxergasse tudo grande antes porque era pra onde eu olhava. Talvez eu enxergue tudo pequeno agora porque é pra onde eu quero ir. Talvez eu já não caiba mais aqui.