Estávamos indo para Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Era muita gente, não sei dizer o nome de todo mundo que estava, nem quantos éramos. Sei que fomos de caminhão pau-de-arara. Meus pais, meu irmão e eu. Tinha umas tias e tios, também. Alguns primos. Em uma das paradas na beira da estrada, fizeram fogueira, comemos, esticamos as pernas. Tinha um lago ali. Eu entrei na água? Vejo a cena aqui na minha cabeça, só é difícil acreditar que minha mãe tenha deixado eu nadar, tão pequena. Sei que foi ali que eu a vi pela primeira vez. Uma menina, criança. Conversamos. Nos tornamos amigas imediatamente. Claudia, era assim que se chamava. Minha amiga Claudia. Companheira de tantos dias, por tantos anos. Seguiu viagem conosco. Sentava-se à mesa com a família. Ia para escola comigo. Presente durante toda a minha infância, desde os 2 anos. Brincávamos juntas, conversávamos. Uma companheira e tanto.
E que só eu via.

Eu ficava brava quando não falavam com ela, ou quando “sentavam em cima dela”. Ela ia comigo para todo canto. Mas teve uma vez que quem me levou foi ela. Para uma viagem espacial, prum tempo que eu não vivi, num lugar que nunca pisei. Vi a casa onde minha mãe nasceu e cresceu. Ela mal acreditou quando lhe contei detalhes que só quem esteve lá poderiam saber. Justo minha mãe, que não acredita muito nessas coisas mais espirituais, digamos assim. Ou acredita, mas não gosta de falar sobre. Justo ela foi ter uma filha como eu, toda trabalhada na espiritualidade, na amiga imaginária, na experiência que a ciência não explica. Coisas da vida.

Hoje não tenho muitas lembranças nítidas da minha amiga tão querida, só algumas. Ela foi embora quando me mudei aqui para São Paulo, com 11 anos. Acho que aí se deu o fim da minha infância. Aquela época mágica e cheia de segredos que ainda mora em algum lugar dentro de mim.

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Fagulha

Aqui estamos nós, numa típica manhã de quarta-feira.
Pequena brincando no chão da sala. Brincando é tirando tudo do lugar, engatinhando por aí, espalhando guardanapos pela cozinha, batendo tampa de panela no chão. Coisas normais de um bebê de um ano.
Eu já arrumei minimamente a sala e me sentei aqui para trabalhar um pouco.
Trabalhar significa que estou tentando escrever e organizar meus projetos, não que eu esteja ganhando dinheiro.
Marido saiu para trabalhar também, esse sim tentando ganhar algum trocado. Tentar nem sempre é conseguir.
A verdade é que não estamos numa boa fase financeira. Não sei se um dia estivemos, mas o cenário já foi mais agradável do que é hoje. Ah, é a crise, o país vai de mal a pior, não está fácil pra ninguém. Já posso ouvir alguém falando por aí. Não quero falar da crise do país agora, desculpa. O que eu quero realmente saber é: o que eu posso fazer para mudar isso? O que eu posso criar a partir da (minha) crise?
Eu não sei.
Esse não saber está me paralisando. É muita coisa que eu não sei.
Isso diz muito sobre mim. Me sinto nua diante desse não saber. Exposta. Vulnerável.
Gosto de falar que tem toda uma beleza por trás do desconhecido. Uma poesia.
Não estou conseguindo acessar essa visão hoje.
Droga! Será que estou perdendo isso também? Não quero ser a pessoa que deixou de acreditar. Sou uma pessoa de fé, isso eu sei.
Opa.
Já é um começo, não é?
Comecemos pela fé.

Bicicleta

A pergunta que não quer calar é: o que define quem nós somos?
O que eu mais vejo por aí é a pessoa se apresentando como: muito prazer, sou Fulano, jornalista. Ciclano, advogado. Beltrano, motorista. Sempre a profissão vem em primeiro lugar. Ou a formação acadêmica, em alguns casos. Sim, mesmo não exercendo tal atividade, mesmo que não tenha prática alguma no cotidiano, melhor falar que se é isso do que abrir espaço para dúvidas. Né?
Indo por este caminho, deixa eu me apresentar. Muito prazer, sou Marina, nada. Como assim nada? Não queria que soasse dramático, nem nada do tipo, é só o que é. Sou nada. Fugi da faculdade duas vezes, não me formei. Tampouco tenho uma profissão ativa hoje em dia.
E então fico pensando no quanto isso me define. Ou não.
Porque eu não quero acreditar que só isso importa, não é mesmo?
E todo o meu estudo a respeito de assuntos tão importantes? Gravidez, parto, amamentação, criação com apego, alimentação consciente. Este é o meu mundo, alguma coisa sobre cada um desses tópicos eu sei.
Além do meu interesse genuíno pela fotografia, meu amor incondicional pela palavra escrita e pelos livros, minha paixão pela música, meu gosto pela dança. Sem contar todo o tempo em que dedico ao meu autoconhecimento, que me rende descobertas bem bacanas e algumas muitas horas de dedicação.
Agora dei para aprender a fazer geleia e tortas. Quero aprender a fazer pão.
Eu sou muita coisa.
Não tenho uma palavra pra mim, para acrescentar depois do meu nome em fichas de inscrição ou em algumas apresentações. Esse espaço em branco por vezes me assusta um pouco, confesso. A gente se acostuma a usar algumas ferramentas para se sentir mais forte, protegido. Como se houvessem garantias.
A verdade é que não há.
Foi quando descobri isso que aceitei que a minha palavra pode demorar ainda um tempo para chegar. Porque eu não quero uma que não seja minha, só para dizer que tenho, para ocupar espaços. Não quero uma palavra que me prenda. Tem que soar bem com liberdade. Flexibilidade. Equilíbrio.
Bicicleta.
Foi o que me veio a cabeça quando escrevi essa última linha.
Meu irmão sempre me chamou de bicicleta, porque era bem magrinha quando pequena.
Óbvio que uma definição pela aparência está fora de cogitação, mas bicicleta é uma palavra legal.
Leve, nos exige movimento constante, nos coloca em movimento, entre tantas outras possibilidades.
Taí, gostei. Bicicleta.
A palavra que me levará pelo meu caminho.
Para onde, é o que vamos descobrir logo ali adiante.

Isso, aquilo, assim

Feminista, defensora ativa de causas como parto humanizado, amamentação exclusiva e prolongada, direitos das crianças, a favor do livre brincar, contra a publicidade direcionada a crianças, a favor de uma alimentação saudável e natural. De uma vida saudável e natural. Ar livre, muito ar livre. Entre outras coisas mais.

A verdade é que eu nunca me intitulei nada. Eu sou isso. Eu sou aquilo. Eu sou assim. Um pouco por rebeldia, talvez. Um pouco por não gostar de entrar em debates calorosos. Não por não ter o que dizer ou não confiar naquilo que acredito. É que eu sou tímida, sabe. E quando é hora de falar, argumentar e tudo mais, as sinapses falham e o que sai da minha boca quase nunca condiz com o turbilhão que se passou na minha mente. Sou daquelas pessoas que imaginam diálogos inteiros quando estou no banho, no trânsito, enfim, sozinha. Dentro da minha cabeça eu sou uma pessoa incrível. Mas não domino a arte da oratória.

Também por isso escrevo.

Há também o fato de eu achar que essa coisa de definição é limitante. Eu sou… Sou mesmo? E se amanhã eu não for mais? E se eu quiser fazer uma coisa, pequenininha que seja, que não honre (?) esse título? Ai que aflição! Sei lá, nunca gostei. Me sentia presa mesmo, essa é a verdade. Queria me livrar de qualquer amarra.

Acontece que quando você não se posiciona na vida, outras pessoas fazem isso por você. Daí em diante, restam dois caminhos: ou você se acomoda e se permite ficar onde te colocaram, capaz até de achar que ali é o seu lugar. Ou você pode sair da inércia e ir atrás do seu próprio caminho. Desenhar os próprios passos. Dançar a sua música.

Eu escolhi a segunda opção.

O que não significa, em absoluto, que eu já esteja com este novo caminho todo aberto e só curtindo a brisa do mar. Eu estou mais para a parte de sair da inércia, bem no começo. Eu saí. E agora?

O que me espera ali adiante? Para onde é mesmo que eu devo ir? São muitas as perguntas. O não saber é um começo, afinal de contas. E será o meu ponto de partida. Escreverei uma página por vez, assim como os passos da caminhada. Porque o caminho é extenso, não sei muita coisa sobre ele. Mas é meu.

Eu não quero chegar lá

Por que nos ensinam que é preciso “chegar lá”? Que existe um lugar a ser alcançado para que só então possamos ser felizes? Quem definiu onde é o “lá”? Por que temos que seguir alguém que nem sabemos quem é, confiando cegamente nessa promessa de dias melhores?

Tenho observado, aqui no meu mundinho cotidiano, que cada vez mais pessoas estão insatisfeitas com o rumo que suas vidas tomaram. Pessoas tristes por não terem condições de fazer mais, frustradas por não terem chegado (supostamente) onde se devia. Pessoas depressivas. E eu só consigo pensar no mal que isso nos faz.

Então tudo bem a gente fazer uma coisa que detesta se é pra chegar lá? Normal deixar o prazer pra depois, porque não dá dinheiro? Aceitável acordar todo dia desejando o fim de semana porque é assim que as coisas são?

Também não estou dizendo que existe um caminho em que todos os dias são floridos e bem iluminados, onde se acorda cantando e dorme sorrindo. Dias difíceis existem para todos, independente das escolhas.

E é por isso mesmo – penso – que seria mais produtivo se fossemos por onde o dia a dia não pesasse sobre os ombros.

Eu não quero viver meus dias esperando um futuro que eu nem sei direito o que é. Não posso aceitar que o sucesso seja algo assim tão longínquo e quase irreal. Que a felicidade seja um objetivo, não um caminho. Não entendo como fazendo uma coisa que eu odeio chegarei a um lugar bom, desejável. Se a gente colhe o que planta, como isso pode ser possível?

Não. Eu não quero assim.
Até porque só o que tenho é o presente. Hoje.
Não dá pra deixar pra depois.
Há que ser feliz hoje. É uma questão de prioridades.