Vou te tirar pra dançar, 2018

Para o ano de 2018, não tenho grandes listas de metas ou resoluções, não. Tem, sim, algumas coisinhas que quero fazer – sempre tem, né? Mas para esse ano eu escolhi uma palavra que quero que seja minha guia, minha bússola. Quero me lembrar dela quando tudo estiver pesado, tê-la como um gatilho bom para voltar pro eixo quando me perder no limbo de pensamentos estranhos, boletos e notícias de política que a gente sabe que vai rolar.

Esse ano eu quero dançar. 

Dançar, sim – literalmente e poeticamente.

Mexer meu corpo, me soltar mais, sozinha e acompanhada, extravasar, lavar a alma, deixar todos os problemas em algum outro lugar enquanto permito que a música guie meus movimentos. Na pista ou na sala. De forma improvisada ou com intenção. Esse ano eu quero me divertir.

E quero dançar na vida.
Aprender a dançar com a vida, na verdade.
Saber conduzir, mas também me deixar ser conduzida.
Ouvir o ritmo tocado em cada momento. Não me apegar. Deixar rolar.
Pedir desculpa se pisar no pé de alguém. Prestar mais atenção.
Me colocar como aprendiz e como amante (que já sou).
Deixar que me ensinem. Inventar meu próprio jeito.
Estar por inteiro dentro do meu corpo. Celebrar isso.
Ter consciência dos meus movimentos.
Respirar. Descansar.
Me entregar. Sentir.

Tem uma coisa que senti forte logo nos primeiríssimos dias desse ano. Não quero me esquecer disso, porque foi um recado muito claro que recebi, vindo de diversas situações. E foi que eu preciso andar com mais leveza e alegria. Olhar pra vida, pra tudo que acontece, com mais leveza e alegria. Me conectar com o bom e como bem no meu caminho, fortalecer isso dentro e fora, nas minhas intenções e nos meus atos.
Algumas vezes (pra não dizer sempre), eu sou muito dura comigo mesma. Principalmente com os meus erros e com o que eu ainda não sei, mas tenho certeza que já deveria saber. Eu me culpo, eu choro muito, eu me cobro e me identifico além da medida com a voz dentro da minha cabeça que me diz que tudo deveria ter sido de outro jeito se eu não fosse tão desesperada em acertar. 

Sinceramente, eu não aguento mais.
Ter consciência de que precisamos melhorar em alguns pontos da vida é ótimo, claro que sim. Mas ficar tão mal com o que passou e falar coisas tão horríveis sobre si mesma que você nem tem coragem de escrever pra mais gente ler… isso não é produtivo, vamos combinar? É muita energia gasta com algo que não vai mudar (no caso, o que já passou) e nenhuma energia investida em olhar pra frente e para as possibilidades do porvir. É entrar numa vibe péssima de sofrimento e dramas sem fim. É deixar crescer além da conta algo que está ali pedindo para ser transmutado, e não alimentado. Sei lá, me dá uma sensação estranha de correr em círculo, vivendo sempre as mesmas situações, sem nem perceber que eu bem podia dar uma paradinha e tentar outro jeito, sabe como é?
Eu não aguento mais e preciso dizer que isso é incrível! Porque, ao assumir que não aguento mais, estou me liberando de segurar esse peso por mais tempo. Estou simbolicamente colocando esse fardo no chão, deixando que ele fique aqui enquanto eu continuo andando. Estou abrindo espaço para agir de outro jeito – ou indo atrás de descobrir como é esse outro jeito. Não aguentar mais é o que faltava para criar coragem de, finalmente, seguir algumas intuições e me jogar por inteiro num caminho de mais amor, compaixão, companhia, gentileza. Essa é parte em que eu digo que, sim, fiz tudo isso ano passado. Segui muitas intuições, fiz novos amigos, me movimentei (em vários sentidos), me joguei em novas experiências. Tem sido incrível mesmo, recomendo forte, é um  caminho sem volta. Mas ainda tenho a questão da dureza e da autocobrança exagerada que chega a me paralisar dependendo do nível e que me machuca sempre. É o que pretendo trabalhar esse ano.

Não acho que, tendo escolhido seguir na vibe da dança, a vida será apenas alegria e malemolência, num eterno sábado de liberdade e som na caixa. Tô bem ligada que podem vir uns tangos quando a preferência seria claramente uma lambada, ou bossa nova quando eu achasse que seria melhor um arrocha. Não é sobre isso. É justamente sobre estar no presente e seguir no meu propósito mesmo com toda falta de controle que é viver. Não levar tudo tão a sério. Estar aberta aos recados que chegam de onde nem se esperava. E me permitir ficar olhando outros passos quando não quiser mesmo entrar na roda, ué. Tá permitido contemplar também, com toda certeza. Nem tudo é sobre a gente e é bom lembrar disso de vez em quando, tirar o ego inflado do caminho e deixar a banda passar, tocando coisas de amor ou seja lá o que ela quiser tocar.

Somos livres para escolher o que fazer com os nossos próprios passos.
Eu quero escolher confiar para me entregar aos movimentos com fluidez e alegria.
(essa é a nova voz que quero que ecoe dentro de mim)

Dá pra aprender um bocado com essa história de dança, né?
Por isso eu disse que tô animada. Vai ser um ano potente, tô sentindo.

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pensando bem…

uma criança que dormiu cedo, promessa de noite tranquila – pra mim. mas foi exatamente o contrário. mesmo depois de um dia inteiro de atenção quase exclusiva, o sono da noite foi conturbado. será que ainda faltou um pouquinho? será que esse dia tocou em algo que estava adormecido e que veio pra superfície, pois sabia que seria atendido? seja o que for, aconteceu. sono leve, pedia minha presença, acordava a cada 20 minutos, passava os braços pelo meu pescoço, queria me saber perto, encostada. fiquei. levantava quando o sono pesava um pouquinho, porque precisava estudar para duas provas na manhã seguinte. teria que acordar cedo, sair sozinha, deixá-la em casa. ainda bem que com o pai ela fica bem. mas ainda era noite, eu precisava estudar – e comer, se não fosse pedir muito. era. voltei pro quarto várias vezes. teve choro, teve xixi, teve carência. eu pedi aos céus, a Deus, aos santos, à Mãe e toda legião que nos protege que acontecesse o que tivesse de ser, incondicionalmente, porque eu já estava tentando dar o meu melhor, mas nem tudo posso controlar. entreguei.
deitei, tentei dormir. a noite não foi das melhores, mas deu pra descansar alguma coisa – com ela em cima de mim, mas era o que tinha. antes do despertador tocar ela já estava acordada, o que significa que eu também estava. tomou banho comigo, conversou, pulou, brincou. eu já estava a beira de uma irritação, queria estar sozinha pra ser mais rápida. lembrei que tinha pedido proteção. estava acontecendo o que tinha que acontecer. ela quis sair comigo, chorou quando fechei a porta. fui. estive sozinha por quatro horas, foi bom. na volta, muito colo e vários papos. fizemos o almoço, comemos, ficamos por aqui. o dia continuava estranho. não era sobre lá fora, produtividade, trabalho e essas coisas da vida real. era a gente mesmo, coisa nossa, interna, misteriosa. os dois adultos da casa cansados, sem conseguir fazer muita coisa. vimos filme quando ela cochilou, nos deixamos ficar assim. nessa estranheza que vez em quando vem nos visitar. por que será que acontece? por que será que, de tempos em tempos, ficamos assim? com a energia meio baixa, a vontade rareando e fazendo só o que for realmente muito necessário. e ela ainda animada, demandando, pedindo. a gente dá aquilo que tem e pode. tem dias que a gente tem pouco. tem dias que não temos pra nós, mas temos que ter pra dar, como já cantou djavan.
fim do dia, respirar lá fora, tentar dar um ânimo. café, pão, rosquinhas. já era noite.
e a conclusão de que hoje foi mesmo esquisito e quase ruim, será que dá pra apagar e começar de novo?
e eu tornei a me lembrar.
da proteção que eu pedi ontem. da oração antes de dormir.
e a resposta que sempre chega rápido mas nem sempre do jeito que esperamos – tanto que por vezes esquecemos. mas ela vem. sempre vem. chega como um dia estranho que só conseguimos fazer o extremamente necessário e não conseguimos nem brincar direito. chega como os atrasos pra sair de casa. nos planos que furaram. no esquecimento repentino de uma reunião marcada. na falta de energia que nos obriga a ficar em casa e só descasar.
ela vem.
na verdade, ela já chegou.
e era pra ser assim. sempre acontece exatamente o que tem de ser. se fosse pra ser diferente, estava sendo.

então, obrigada. pela proteção diária. por nos fazer estar exatamente onde deveríamos estar. para viver e aprender o que estiver acontecendo. e fazer existir a lembrança de que nada é em vão debaixo desse céu.

escrevi coisas pelas quais sou grata hoje. escrevi. e me senti protegida. eu realmente senti. então está tudo bem. que bom que eu consegui perceber.

Pequeninos seres

Eu gosto de pensar nos sentimentos como pequeninos seres que vivem dentro de nós. Sua função é nos ajudar a ver o mundo de acordo com as suas lentes. Dependendo do que está em cena, algum deles sobe até a borda, entra no campo das relações e faz o seu trabalho. Depois volta para o seu lugar, pois sabe que existem outros esperando para cumprir o seu papel também. Dependendo da intensidade sobem muitos – e a gente fica com aquela sensação de “misto de sentimentos”. É que de vez em quando eles também se atropelam e precisam dar o se recado ao mesmo tempo, têm muita urgência.

Muitas vezes, porém, os impedimos de sair, de chegar até a superfície e nos mostrar o que tem que ser visto. Provavelmente é quando não gostamos do que já vimos através deles em outro tempo. Quando houve alguma ferida – que pode nem estar curada ainda. Gato escaldado, sabe como é.
Só que quando não damos espaço para que eles saiam, eles permanecem tentando nos mostrar. Não entendem o recado – ou não aceitam, vai saber. Continuam voltando, dia após dia. E o que pode acontecer é, não conseguindo sair pela porta tradicional, eles procuram outros meios para nos mostrar o quer que seja que precisamos ver ou resolver. Dão seus recados através de falta de ar, dor nas costas, insônia, fome descontrolada, ansiedade, dor de cabeça (só no campo das dores a lista é vasta). Eles não vão embora. Mesmo quando achamos que sim. Mesmo quando achamos que estão em sono profundo, mortos, enterrados.

A única forma de fazer com que eles nos deixem em paz é uma só: permitindo que eles venham. Reconhecendo que estão aqui.

Mas é importante falar uma coisa: sentir não é fazer. Não é porque estou sentindo muita raiva que tenho que bater em alguém. Não é porque estou com ciúmes que preciso ofender o outro. É óbvio que não é necessário sentir sozinho, escondido no quarto. Mas quando os sentimentos se tornam ações, não dá pra ultrapassar o limite do outro. Faça o que quiser dentro do seu campo de segurança. Não precisa fazer com que o outro sinta o que você está sentindo batendo, humilhando, ofendendo. Porque assim essas emoções tomam conta por muito mais tempo do que o necessário. Deixam de ser pequeninos seres para serem grandes monstros. E não é bem assim. Somos integrados e compostos por várias partes. Da mesma forma que não dá para ser só racional e fingir que não sente nada, viver dominado pelas emoções também não é o caminho mais indicado.

Eu sei que não é fácil, que nem sempre a gente consegue. Mas é preciso ter paciência, principalmente com a gente mesmo. Paciência para esperar, para deixar vir, para ouvir, para mudar. Nada é da noite pro dia. A vida é uma travessia. Que continuemos caminhando, apesar do que achamos que pode nos impedir – a única coisa capaz disso é a gente desistir e parar de ir. De resto, a gente dá um jeito. Sempre dá.

(trecho da minha newsletter, enviada em março de 2017. para se cadastrar e acompanhar meus devaneios e doidices, é só se cadastrar por esse link: https://tinyletter.com/marinammatos).

Não é pra ser tudo igual

Esses dias eu estava conversando com uma pessoa sobre como tenho dificuldade de sentir o tal do pertencimento. Em relação a grupos, pessoas, movimentos e a coisa toda. Nessa conversa em questão eu tentava encontrar um equilíbrio, um norte. Cabe muitas vertentes aqui dentro, sabe, nunca estou num mesmo canto, com um único foco de interesse, enfim. Na verdade, eu só queria saber se eu não era estranha demais por não me sentir inteiramente pertencente a um lugar só, entre iguais.

Porque desde muito cedo a gente aprende a buscar as semelhanças pelo mundo. Afinidades, simpatias, vínculos. Tudo o que combina. Na adolescência deve acontecer uma espécie de ápice, quando afastamos pra bem longe tudo que não queremos nem pensar em ser. Mas isso não se encerra nessa fase da vida. (E quando evolui de forma doentia, o que surge são todos os preconceitos, discursos de ódio e até leis que tentam proibir as diferenças de existem sobre a terra. E isso é muito sério). E não nos esqueçamos de um fenômeno mais recente, as nossas famigeradas timelines, que seguem mais homogêneas do que nunca, excluindo os que vão contra as nossas verdades e trazendo pra perto só quem nos soa bem aos ouvidos. Queremos construir uma bolha perfeita de sintonias e morar dentro dela pra sempre. Que maravilha, um mundo só de semelhantes, em que todos se entendem, se reconhecem e por aí segue as utopias todas de um mundo mais bonita e cor de rosa (ou qualquer outra cor, mas que seja uma só).

O que não nos contam é que a gente também se encontra nas diferenças. Principalmente nas diferenças, eu diria. Na verdade, só conseguimos saber quem somos quando identificamos tudo o que não nos cabe. Já pensou nisso? Que esse estranhamento é uma peça bem importante na construção da nossa identidade? A alteridade nos traz mais empatia, tolerância, reconhecimento e é onde mora o que ainda não aprendemos, enquanto sociedade, sobre a vastidão que é ser humano.

As diferenças compõem o cenário e precisamos aprender a conviver com elas, é urgente que isso aconteça. E então eu entendi que pertencimento não precisa ser necessariamente sinônimo de tudo que é igual ao que eu sou. Até porque, vamos combinar, não existe essa pessoa ou grupo que seja assim, tim-tim por tim-tim, o que a gente é. Ufa. Posso me sentir pertencente a várias frentes, e ainda bem que existem tantas nuances nas quais eu posso  me espelhar, e observar, e aprender, e conviver. Como eu costumo dizer: o mundo é desse tamanhão todo exatamente pra caber todas as diferenças e peculiaridades. Que não as afastemos de nós, afinal. Que saibamos respeitar os seus (e os nossos) lugares nessa trama que é a vida.

Eis o desafio

Nem sempre é fácil saber esperar o tempo do outro. Muitas vezes a gente apressa as coisas. Porque é muita ansiedade, porque é melhor viver logo o que tiver de ser, porque quer acabar com isso de uma vez. A gente apressa. Muitas vezes por ânsia, uma sede de viver, de botar no mundo um projeto, um sonho, um ideal. Mas aí, no meio do caminho, encontramos outra pessoa. Ah, as pessoas. Mundos distintos, por vezes tão distantes dos nossos. Mesmo vivendo na casa ao lado, mesmo dividindo a mesma cama. Pessoas são mundos inteiros que, por mais que a gente queira, por tanto que a gente tente, não há como conhecer (entender) assim logo de cara, de uma vez.

O negócio começa a encrencar quando a gente pensa que tem que ser pro outro da mesma forma que vemos pra nós. Da nossa janelinha temos uma visão parcial da realidade, é meio estranho achar que em todo lugar é do mesmo jeito, ao mesmo tempo. Que o outro vai ter as mesmas impressões, reações, emoções. Que a ficha vai cair ao mesmo tempo. Que a chavinha vai virar e passaremos a vibrar na mesma frequência, em perfeita sintonia e equilíbrio.

E o barato da vida não estaria justamente nisso? Em todas as diferenças, tons, frequências e melodias que, juntas, formariam um cenário espetacular, mas absolutamente essenciais e inteiras, próprias, completas em cada singularidade?

Eu não sei. Por que tem sido tão difícil ser empático? Por que a empatia só existe com aqueles que me são mais queridos? Quero dizer. Muito fácil me colocar no lugar do outro quando gosto dele, quando frequentamos as mesmas rodas, falamos o mesmo discurso político ou temos as mesmas preferências culinárias. Mas e todo o resto do mundo? Existe uma escala de empatia? Existe algum tipo de meritocracia? Não dá. É complicado querer que os outros andem no nosso compasso, porque do nosso jeito é claramente mais legal, bonito e eficiente, inclusive comprovado cientificamente. Pode ser. Acredito que seja mesmo. Eu mesma por vezes me pego querendo, com algumas pessoas, enfiar palavras goela abaixo e torcendo para elas se transformarem em algo produtivo lá dentro. E que transbordem. De preferência no tempo que eu julgo mais apropriado.

(Eu sei que a vida real, lá fora, é torta. Que existem pessoas que fazem mal uso do poder que têm, que violentam, que matam, ferem, ofendem, agridem. Também choro com isso. E não estou dizendo pra gente passar a mão na cabeça desse povo, muito menos fazer vista grossa. Nem era nisso que eu estava pensando quando comecei a escrever esse texto. Mas me ocorreu, porque é fácil a gente falar que não dá pra ter empatia com tais atitudes. Óbvio. É que hoje não estou me referindo aos atos, quaisquer que sejam). Estou divagando sobre a gente querer sempre que o outro nos acompanhe nos raciocínios, nos engajamentos, nas atitudes. Até nas pausas. Até nas férias. Até nas farras.

Algumas vezes a gente precisa saber esperar também. Eis aqui o desafio. O maor impasse da era do imediatismo e da eficiência. E s p e r a r. Sair um pouco do modo ativo, sentar na calçada, debaixo da sombra de uma árvore e apenas estar ali. Enquanto o outro pondera. Gesta. Transforma. A vida também acontece de pouquinho, afinal. Pode ser que seja uma postura, uma forma de ver a vida. E que tenha algo a ver com confiança, por saber que estou fazendo a minha parte; e de humildade, porque nem tudo depende de mim. Que bom que não.